terça-feira, 30 de julho de 2013

Capítulo 06

Acordei com o vento frio no meu rosto. Josh dormia do meu lado.
Levantei e lá estava Lex, deitado, completamente encolhido de frio.
Peguei a capa que usei como travesseiro e coloquei sobre ele.
Fiquei ali parada, olhando enquanto ele dormia. Comecei a pensar que realmente tinha pegado pesado com ele, afinal ele era só um garoto, ele tinha a minha idade, ele não tinha participado daquilo tudo.
O tempo estava nublado, e pela primeira vez agradeci pelas roupas que distribuíam no buraco serem sempre quentes.
- Não fui eu. – Lex falou, estava sonhando, ou tendo pesadelos. – Eu juro, eu não fiz nada, a culpa não é minha, por favor!
Ele começou a se debater, eu não sabia o que fazer.
Foi então que eu lembrei. Quando eu era pequena, minha mãe aquecia as mãos e massageava minhas têmporas quando eu estava com medo ou tendo pesadelos.
Uma parte de mim perguntava por que eu estava fazendo isso, mas outra dizia que eu precisava fazer isso.
Aqueci minhas mãos uma na outra, me ajoelhei ao lado dele e comecei a massageei suas têmporas. Ele começou a se acalmar o que me deixou aliviada.
- To vendo que mudou de ideia. – Falou Josh.
Ele estava deitado, com um sorriso bobo nos lábios, o que me fez sorrir e corar.
- Ele estava me assustando. – Falei, me sentando ao lado dele. – O que descobriu?
- O planeta deles é conquistador de vários outros planetas. E eles nunca contam a história de como os planetas foram conquistados. Quando contei a ele sobre o massacre, só faltava ele começar a chorar.
Eu não pude deixar de sorrir, ele era um deles, mas era diferente da maioria, e eu quase conseguia gostar dele.
- E o homem da foto? O pai dele?
- Comandante Alarik. Disse que é o mais importante da frota.
- Uau, acho que nos metemos em encrenca.
- Acho que não... Pelo que ele disse, não vão procurar por ele tão cedo.
- Por quê?
- Ele brigou com o pai... O acidente da nave, ele estava indo para uma vila onde o pessoal dele se instala na superfície.
Assenti.
Só então lembrei que eu e Josh estávamos realmente encrencados.
- Nós dormimos fora do buraco.
- Seu pai...
- Meu pai? Acho que seus pais são piores, eles são os governantes do buraco.
Josh olhou pra mim, os olhos cheios de pânico.
- Já sei, podemos falar que chegamos tarde demais e que saímos cedo. – Ele falou.
- Não... Eles têm câmeras por todo buraco, menos na escotilha.
Eu e ele tínhamos desenvolvido a habilidade de ler as mentes um do outro, o sorriso ou o olhar. Sabíamos tudo um do outro praticamente, sem precisarmos trocar uma palavra.
Começamos a acordar Lex.
- Precisamos ir... O que acontece com você? – Josh perguntou.
- Eu vou ficar bem, só vou ficar com frio.
- Vamos até o buraco e pegamos uma capa pra você. – Falei.
Josh me olhou, como se não pudesse acreditar que eu tinha dito aquilo em voz alta.
Descemos o prédio e corremos o mais rápido para o buraco.
Assim que entramos, trancamos a escotilha.
Josh segurou meu braço. Ficamos em silêncio e escutamos passos vindo pela passagem. Olhei para Josh.
- E agora? – Sussurrei.
Ele se deitou no chão.
- Vem, finja que está dormindo.
Deitei em cima do braço dele e fechamos os olhos.
Os passos ficaram mais próximos e logo pararam a nossa frente.
O perfume da pessoa era inconfundível.
- Vamos meninos, sei que você estão acordados e que vocês chegaram agora.
- Nos desculpe Aleck, perdemos a hora...
- Não precisa se desculpa Josh, os dois estão bem. O problema é que... Bem, não quero que aconteça nada com vocês.
Olhei para Josh.
- Café da manhã então? – Falei.

Meu pai nos ajudou a levantar, passou o braço por cima dos meus ombros, nos levando para casa.

domingo, 28 de julho de 2013

Capítulo 05

Nós criamos um tipo de roldana pra subirmos o corpo do garoto.
Assim que o colocamos no terraço ficamos parados examinando o corpo.
- O que acha que devemos fazer com ele? – Falei.
- Vamos dissecar o cérebro e fazer experimentos! – Josh falou, e nós dois começamos a rir.
- Sem esquecer que ele é um de nós, mas tudo bem. Não, mas sério mesmo... O que vamos fazer?
- Podíamos descobrir mais sobre ele...
- Podemos ver o que ele tinha na nave. – Falei.
- É... Vamos lá, antes que fique tarde.
- Espera, vamos amarrá-lo, só para o caso de ele tentar fugir.
- Você faz isso...  Sempre soube dar nós melhores que os meus.
Considerei aquilo como um super elogio e comecei a dar nós nos pulsos e nos tornozelos.
- Pronto... Ele não vai mais conseguir correr.
Descemos o prédio e voltamos até o campo de morangos.
Subimos na nave e quebramos todo o vidro, para que Josh passasse.
Começamos a revirar tudo. Alguns documentos, que diziam que o nome do garoto era Lex, alguma coisa sobre fazer parte do que seria a “aeronáutica” pra eles.
- Se ele é um dos grandes da aeronáutica deles, é a primeira vez que sinto pena dos invasores. – Falei, o que fez Josh rir.
- Kat... Vem dar uma olhada nisso.
Ele segurava uma foto, onde Lex se encontrava ao lado de um homem, na parte de trás da foto, estava assinado “sei que você vai me orgulhar Lex, com amor, seu pai.
- Bem... Devia ser um garoto certinho. – Josh falou.
- Só ver pelo cabelo. – Falei, rindo e lembrando de quando a Terra era praticamente assim.
Coloquei as coisas da nave na cesta de morangos, incluindo a foto e voltamos para o prédio. O garoto ainda estava desacordado.
- Será que ele está vivo? – Josh perguntou, não sei se preocupado ou só simplesmente pra poupar tempo.
Deitei minha cabeça sobre o peito de Lex e ouvi e senti seu coração batendo.
- É... Ele está vivo.
- Não vai demorar muito a acordar... Logo ele vai ficar com fome.
Ficamos sentados ali comendo morangos até que eu comecei a ficar preocupada com Lex.
- Porque ele não acorda?
- Ta com tanta vontade assim de conversar? Eu to aqui!
Dei um soquinho em seu braço e ele riu.
Levantei e peguei água no andar de baixo.
- Quer ter a honra de jogar a água? – Falei.
Josh se levantou e jogou a água em Lex.
Ele tossiu engasgado e abriu os olhos. Eram os olhos verdes mais lindos que eu já havia visto.
- PONTO PRA MIM! YEEEAH! – Josh falou, me levantando no ar.
Quando ele me colocou no chão, ficamos olhando para Lex. Ele ainda estava engasgando.
Me ajoelhei do lado dele e o sentei, dando batidinhas em suas costas.
Quando ele finalmente parou de tossir, ele olhou para o lado e ficou me encarando com os olhos verdes assustados.
- Onde estou? – Ele falou.
Sua voz era rouca e grave.
- Não importa! – Falei.
Me levantei e fiquei ao lado de Josh. Lex nos olhava e depois olhou para os pulsos amarrados.
- Mas o que é isso? Vocês sabem quem eu sou?
- Algum oficial menor da aeronáutica dos “superiores”, seu nome é Lex e você é um desgarrado. – Josh falou.
- Como sabem...?
- Sua nave caiu, nós tiramos você de lá.
Ele ainda olhava para os pulsos presos e ele começou a forçar as cordas, tentando se soltar.
- Não perca seu tempo, ninguém sabe dar nós igual a mocinha aqui. – Josh falou.
- Vocês sabem quem eu sou... Eu poderia saber quem vocês são?
Os olhos dele estavam marejados e por um segundo senti pena dele.
- Sou Katherin e esse é Josh.
- Como me encontraram?
- Nós colhíamos morangos, então, bem... Você sabe.
Ele encostou as mãos amarradas no estômago.
Olhei para Josh e vi que ele estava meio incrédulo por eu estar sentindo pena de Lex.
Andei até onde guardávamos comida e Josh veio atrás.
- Espera, você não vai fazer isso vai? Vai dar comida pra um deles.
- Olha, ele é só um desgarrado, tente entender que ele deve ter feito isso pra conseguir o que comer.
Josh parou e refletiu depois me ajudou a levar algumas coisas para Lex. Por mais que eu odiasse os superiores e qualquer um que se juntasse a eles, eu sabia o que era ficar com fome e não ter o suficiente, e eu não desejava isso pra ninguém.
- Aqui. Coma alguma coisa. – Josh falou, entregando uma das cestas a ele.
Cortei as cordas que o amarravam e ele começou a comer.
Eu e Josh sentamos ao lado dele e comemos o que tínhamos separado para nós.
Um silêncio mortal imperava entre nós três, o que era estranho porque sempre que eu e Josh estávamos juntos, nada fazia silêncio.
- Por quê? – Eu falei, me dirigindo a Lex.
- Desculpe...
- Porque foi pro lado deles? Porque se tornou um desgarrado?
- Desculpe, mas... Eu nasci do lado deles.
Olhei para Josh e nós dois nos levantamos. Josh me colocou atrás dele.
- É um deles? – Josh perguntou.
- Sim, isso é algum problema?
- Você ainda pergunta? – Eu falei.
- Mas por quê? – Lex falou.

Ele só podia estar brincando... Eu via as cenas do massacre se repetindo na minha cabeça.
- Fique em silêncio filha, logo o tio Aleck virá cuidar de você.
- Mas papai, onde você está indo?
- Vou ajudar mais pessoas, já voltamos.
- Mamãe, fica aqui comigo.
- Vou ajudar o papai filha, nós já voltamos.
Ela me deu um beijo na testa e os dois correram para fora da boca de uma caverna onde tinham me deixado. Aleck, que agora eu considerava um pai, chegou chorando e me pegou no colo.
- Onde estão papai e mamãe, tio Aleck?
- Desculpa Kat... Eles não vão voltar.
Me lembro de ter ficado acordada três noites, esperando meus pais voltarem, porque eu não quis acreditar que eles não voltariam mais.

Saí de trás de Josh e virei a mão no rosto de Lex. Josh me puxou pela cintura e eu o abracei. Estava soluçando.
- Hei, Kat, calma... São só lembranças, calma.
Josh passava a mão pelo meu cabelo.
- Desculpe... Mas eu não consigo entender... O que houve com ela? – Lex falou.
- Você só pode estar brincando não é? Faz isso com todo ser humano? Gostam de nos fazer sofrer? Não somos submissos, temos sentimentos, somos rebeldes demais pra sermos governados por vocês! – Eu já estava gritando.
Minhas mãos coçavam com vontade de bater em Lex de novo e de novo e de novo.
- Kat, para! – Josh falou e me carregou no colo até um canto mais afastado do terraço.
Eu não conseguia parar de chorar. Não era mais um choro de tristeza por ter perdido meus pais, era pura raiva.
- Kat, calma, a culpa não é dele.
- Do que você está falando, claro que é!
- Olha, ele tem a sua idade. Quando aconteceu o massacre ele devia estar brincando no planeta dele. Tente se acalmar.
- Josh, não foi você que perdeu os pais ok?! Nesse momento, seus pais estão no buraco, cuidando da Sophie, que tem 10 anos. Você tem uma família, eu só tenho o Aleck e mesmo assim, ele não é minha família.
Josh afundou meu rosto em seu peito.
- Tente relaxar, vou conversar com Lex sozinho.
Josh enrolou a capa dele e me obrigou a ficar deitada.
Acabei dormindo.
E não tive sonhos.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Capítulo 04


Chegamos até a divisão do campo com o lago e vimos o estrago.
Fomos nos aproximando da margem, já que a nave estava mais para o fundo.

Foi ai que eu vi um movimento. Tinha alguém preso ali dentro.

- Ok, acho que já vimos o bastante.
- Não Josh, espera... Fique aqui, eu já volto.
- O que vai fazer?
- Tem alguém ali dentro.
Josh falou mais alguma coisa que eu não ouvi.
A água já batia na minha cintura quando consegui encostar a nave.
Procurei o vidro e lá dentro, vi o menino mais bonito que eu já tinha visto. Estava de olhos fechados e com um fio de sangue escorrendo da testa pelo impacto.
Ele abriu um pouco os olhos e disse "socorro", mas não deu pra ouvir pelo vidro.
Pulei na água de novo e procurei uma pedra grande o suficiente para que eu pudesse quebrar o vidro da cápsula para que eu pudesse tirá-lo de lá!
Josh estava gritando alguma coisa pra mim, mas eu não conseguia ouvir, então ele começou a correr na minha direção.
- O que está fazendo? - Ele disse, segurando meus dois braços.
- Temos que tirar ele daí, ele vai morrer.
- Não podemos ajudar um dos deles, quer ser morta?
- Não é um deles Josh... É um garoto.
Josh subiu na cápsula até ver o lado de dentro.
- É um desgarrado.
- Um o quê?
- Desgarrado. Ele trocou de lado, não sabe nem dirigir uma nave.
- Se ele é um desgarrado é um de nós. Temos que tirá-lo daí.
Com relutância, Josh me ajudou a achar uma pedra.
Comecei a bater a pedra com força no vidro que já tinha trincado com o acidente.
Meu braço já estava doendo quando finalmente consegui um buraco grande o suficiente pra que eu pudesse passar.
Lá estava ele, desacordado e eu precisei arrastá-lo até onde eu havia quebrado o vidro. O levantei como deu e pedi a Josh para ajudar a pegá-lo.
Quando desci, Josh estava com ele em seu ombro.
- O que quer fazer com ele agora?
- Vamos levá-lo para o buraco.
- O quê? Não, não e não... Eles vão matar a gente.
- Deixa disso, vai dizer que está com medo dos governantes?
- Esqueceu que minha mãe faz parte dos governantes? Se ela descobrir estamos mortos.
Coloquei minha cabeça pra funcionar. Eu tinha que achar um jeito de cuidar daquele garoto.
- Já sei... Vamos pro seu prédio. Aquele das cordas.
Josh não falou nada, só começou a andar na direção do prédio.

Capítulo 03

A Colheita: Os governantes do buraco faziam uma prova com os jovens de vinte à trinta anos. Essa prova incluía resistência e sobrevivência no mundo exterior, e era uma prova obrigatória.
No final, a menina e o menino que se dessem melhor, tinham permissão legal de transitar no mundo fora do buraco, e ninguém nunca tinha se dado tão bem a ponto de ninguém nunca ter passado.

É, eu sei, é injustiça eu e Josh passarmos pela mesma prova, afinal, somos os únicos que sabemos exatamente o que fazer.

Os testes desse ano eram sobre clima, como sobreviver no frio (mesmo que em nossa cidade era quente a maior parte do ano), como fazer arapucas, e como esperado, eu e Josh burlamos o teste para não passarmos.
Era o segundo ano que fazíamos isso.
Porque burlávamos o teste? Pense bem, se eu e Josh ganhássemos isso, seríamos obrigados a sair só pra arranjar comida, e todas as nossas horas de diversão teriam sido arruinadas.
Assim que a Colheita acabou e seus governantes anunciaram que ninguém estava apto a sair, eu e Josh pegamos nossas capas e fomos até o campo de morangos.
- Sabe... Um dia, eu ou você, vamos acabar indo bem na Colheita sem querer. Juro que hoje pensei que iriam te aprovar.
- Não fui tão bem assim, Josh. - Falei, enquanto colhíamos os morangos.
- No seu teste de sobrevivência você foi pelo impulso e pegou uma capa marrom para usar a noite. Foi apenas...
- Força do hábito. - Falei e ele deu uma risada.
- Exatamente.
Pela primeira vez, não quis estar naquele campo de morangos. Uma cápsula, dos seres superiores, estava caindo num lago ali perto.
A nave explodiu com o impacto e um incêndio controlado começou.
Olhei para Josh.
- Eu sei que você quer ir lá dar uma olhada, conheço você.
- Mas... Estou com medo.
- Vamos. - Ele pegou minha mão. - Estou aqui com você.
Apertei a mão de Josh e fomos andando até o local do acidente.

Capítulo 02

Abri a porta de casa o mais devagar possível, se meu pai não estivesse acordado, minha chance de levar broncas seria quase inexistente.
- Onde você estava mocinha?

Virei-me devagar.
- Oi pai.
Ele colocou a mão em minha testa, estava morna pelo vento de hoje.
- Lá fora de novo?
Assenti com a cabeça.
Uma coisa que você deve saber sobre meu pai. Ele não era meu pai de verdade. Meus pais haviam morrido na resistência. Não estavam lutando, mas me esconderam e tentaram ajudar outras pessoas a encontrarem abrigo.
Meu pai de criação era um homem vinte anos mais velho que eu, e eu realmente o via como um pai e não como outra coisa qualquer.
Entreguei a ele a bolsa com pão e um pequeno pote com creme de avelã.
Ele sorriu.
- Foi o Josh, não é?!
- Só ele consegue essas coisas.
- Esse menino vai acabar sendo pego.
- Mas enquanto isso, eu e ele vamos tentar não deixar o buraco com fome.
Ele me abraçou.
- Você está grande demais, e me lembra seu pai.
Fisicamente eu tinha os traços da minha mãe. Era loira, os cabelos ondulados e os olhos que variavam do verde ao azul. Já espiritualmente, meu pai estava em todo o meu ser.
Meu pai de criação era branco, o cabelo e os olhos pretos e eu, particularmente, o achava lindo. Até acho que se meus pais fossem vivos, eu teria uma queda por alguém como ele, mas aprendi a amá-lo somente como meu pai.
- Acho melhor você dormir. Amanhã é dia de colheita e sei que você e Josh amam isso.
- Ah, pelo amor de Deus. - Falei, fazendo com que ele risse.
O deixei comendo e enquanto isso fui colocar uma roupa para dormir.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Capítulo 01


Eu havia crescido em um subterrâneo.
Não se havia noticias do mundo de fora, até eu fazer quinze anos. Quando completei essa idade, eu e meu melhor amigo Josh saíamos do buraco, mesmo sendo contra as regras.

O mundo voltou a ser selvagem. Eram árvores para todos os lado, plantas cresciam em ruínas de prédios e carros corroídos pelo tempo.

Quando completei dezoito anos e Josh vinte, as pessoas no buraco começaram a passar fome. As plantações subterrâneas não davam alimento suficiente para todos. Então eu e Josh começamos a sair escondidos para procurar alimento.
Colhíamos, caçávamos, éramos os rebeldes do buraco... E sim, haviam mais de nós, cada um de um buraco diferente, o que eu e Josh acabamos chamando de províncias.
A melhor época da minha vida, foi quando completei vinte e um e Josh vinte e três.
Certo dia, Josh disse que me levaria ao lugar mais lindo que ele conhecia.
Chegamos a um prédio em ruínas, mas ainda estava seguro para entrar. Fomos escalando os escombros até chegar ao telhado, que um dia tinha sido usado para pouso de helicópteros.
Quando finalmente terminei de subir, meu estômago revirou e por pouco não vomitei.
- Kat, está perdendo o ritmo.
- Não enche Joshua. - Falei e sorri.
- Vem, vai ser a melhor sensação do mundo.
Ele amarrou minha cintura em uma corda e fez a mesma coisa consigo, prendendo as duas cordas num portão que ainda estava bem forte.
Fomos até a beirada do prédio e olhei para baixo. Eram mais de vinte metros de queda. O vento estava forte, fazendo com que meus cabelos loiros voassem em meus olhos.
- Faça o que eu fizer. - Ele falou.
Fechando os olhos, Josh colocou toda a força de seu corpo pra frente e abrindo os braços, fazendo com que ficasse suspenso contra o vento forte, só as pontas dos pés tocavam o edifício, era como se ele pudesse voar.
Fiz a mesma coisa.
No começo aquela adrenalina, o perigo de cair, o medo e depois, aquele frio na barriga, aquela sensação do vento morno batendo em seus olhos.
- Ei Kat, abra os olhos... - Foi o que ouvi da voz de Josh por cima do vento que corria em meus ouvidos.
Realmente, seria a coisa mais linda que eu veria no mundo. Enquanto o vento me mantinha suspensa no ar, o pôr do sol atrás dos prédios tirou meu fôlego.
Eu congelei aquele momento. Estava do lado da pessoa que eu mais amava no mundo e era a coisa mais linda que já vira todos os anos que eu podia recordar.
Demoramos um pouco até pesar nosso corpo pra trás e sermos arremessados pela força do vento.
Caímos no chão e rimos até nossas barrigas doerem.
- Josh, você é o melhor amigo que eu poderia ter.
- É, eu sei. Sem mim, nesse exato momento, você estaria passando fome naquele buraco.
Dei um soco em seu ombro.
Ele foi até o andar de baixo.
- O que você vai fazer?!
- Você deve estar com fome, eu vou pegar alguma coisa pra você comer.
Ele voltou com pão e creme de avelã.
- Onde achou isso?! - Falei, sorrindo.
- As fábricas ainda funcionam, sabia? Só que eles não vendem, é tipo um trabalho escravo pros "seres superiores" e eles acabam contrabandeando algumas coisas pros rebeldes.
- E eles...
- É, muitos deles continuam passando fome, porque eles não podem comer o que produzem, há não ser que deixem.
Olhei o pão e me senti um pouco culpada, mas comi mesmo assim, afinal eu estava com fome.
Guardei um pouco de pão e creme para levar para casa.
- Precisamos voltar, está ficando escuro.
Usávamos um tipo de capa marrom se precisássemos andar há noite. Era nossa camuflagem, afinal, não tinha mais luz e se fossemos pegos, com certeza estaríamos mortos.
Fomos o mais rápido que pudemos, entramos no buraco e Josh trancou a porta atrás de si.
Tiramos os capuzes e penduramos na escotilha, já que éramos os únicos que tinham coragem de sair a noite.
- Boa sorte com o seu pai hoje.
- Ah, guardei alguma coisa pra ele comer... Vou ficar bem.
Ele me deu um beijo na testa e foi em direção a casa dele. Agora era só enfrentar o meu pai.

Prólogo


Guerra. E nada mais.

Desde o início, achávamos que o contato extraterrestre seria pacífico, mas não foi bem assim.
Eles vieram na intenção de nos dominar, mas a raça humana não era submissa desse jeito.
Nos armamos como podíamos, lutamos como podíamos, até que se fez silêncio sobre a Terra. Os sobreviventes se escondiam em subterrâneos e ali viveríamos como desse  Em terra, corpos até onde a vista alcançava.
E foi assim que eles nos dominaram.
A guerra havia sido perdida covardemente. E foi aí, quando eu tinha apenas oito anos, que soube que eu vingaria todas aquelas vidas e tomaria o planeta de volta.