quinta-feira, 4 de julho de 2013

Capítulo 01


Eu havia crescido em um subterrâneo.
Não se havia noticias do mundo de fora, até eu fazer quinze anos. Quando completei essa idade, eu e meu melhor amigo Josh saíamos do buraco, mesmo sendo contra as regras.

O mundo voltou a ser selvagem. Eram árvores para todos os lado, plantas cresciam em ruínas de prédios e carros corroídos pelo tempo.

Quando completei dezoito anos e Josh vinte, as pessoas no buraco começaram a passar fome. As plantações subterrâneas não davam alimento suficiente para todos. Então eu e Josh começamos a sair escondidos para procurar alimento.
Colhíamos, caçávamos, éramos os rebeldes do buraco... E sim, haviam mais de nós, cada um de um buraco diferente, o que eu e Josh acabamos chamando de províncias.
A melhor época da minha vida, foi quando completei vinte e um e Josh vinte e três.
Certo dia, Josh disse que me levaria ao lugar mais lindo que ele conhecia.
Chegamos a um prédio em ruínas, mas ainda estava seguro para entrar. Fomos escalando os escombros até chegar ao telhado, que um dia tinha sido usado para pouso de helicópteros.
Quando finalmente terminei de subir, meu estômago revirou e por pouco não vomitei.
- Kat, está perdendo o ritmo.
- Não enche Joshua. - Falei e sorri.
- Vem, vai ser a melhor sensação do mundo.
Ele amarrou minha cintura em uma corda e fez a mesma coisa consigo, prendendo as duas cordas num portão que ainda estava bem forte.
Fomos até a beirada do prédio e olhei para baixo. Eram mais de vinte metros de queda. O vento estava forte, fazendo com que meus cabelos loiros voassem em meus olhos.
- Faça o que eu fizer. - Ele falou.
Fechando os olhos, Josh colocou toda a força de seu corpo pra frente e abrindo os braços, fazendo com que ficasse suspenso contra o vento forte, só as pontas dos pés tocavam o edifício, era como se ele pudesse voar.
Fiz a mesma coisa.
No começo aquela adrenalina, o perigo de cair, o medo e depois, aquele frio na barriga, aquela sensação do vento morno batendo em seus olhos.
- Ei Kat, abra os olhos... - Foi o que ouvi da voz de Josh por cima do vento que corria em meus ouvidos.
Realmente, seria a coisa mais linda que eu veria no mundo. Enquanto o vento me mantinha suspensa no ar, o pôr do sol atrás dos prédios tirou meu fôlego.
Eu congelei aquele momento. Estava do lado da pessoa que eu mais amava no mundo e era a coisa mais linda que já vira todos os anos que eu podia recordar.
Demoramos um pouco até pesar nosso corpo pra trás e sermos arremessados pela força do vento.
Caímos no chão e rimos até nossas barrigas doerem.
- Josh, você é o melhor amigo que eu poderia ter.
- É, eu sei. Sem mim, nesse exato momento, você estaria passando fome naquele buraco.
Dei um soco em seu ombro.
Ele foi até o andar de baixo.
- O que você vai fazer?!
- Você deve estar com fome, eu vou pegar alguma coisa pra você comer.
Ele voltou com pão e creme de avelã.
- Onde achou isso?! - Falei, sorrindo.
- As fábricas ainda funcionam, sabia? Só que eles não vendem, é tipo um trabalho escravo pros "seres superiores" e eles acabam contrabandeando algumas coisas pros rebeldes.
- E eles...
- É, muitos deles continuam passando fome, porque eles não podem comer o que produzem, há não ser que deixem.
Olhei o pão e me senti um pouco culpada, mas comi mesmo assim, afinal eu estava com fome.
Guardei um pouco de pão e creme para levar para casa.
- Precisamos voltar, está ficando escuro.
Usávamos um tipo de capa marrom se precisássemos andar há noite. Era nossa camuflagem, afinal, não tinha mais luz e se fossemos pegos, com certeza estaríamos mortos.
Fomos o mais rápido que pudemos, entramos no buraco e Josh trancou a porta atrás de si.
Tiramos os capuzes e penduramos na escotilha, já que éramos os únicos que tinham coragem de sair a noite.
- Boa sorte com o seu pai hoje.
- Ah, guardei alguma coisa pra ele comer... Vou ficar bem.
Ele me deu um beijo na testa e foi em direção a casa dele. Agora era só enfrentar o meu pai.

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