Eu
havia crescido em um subterrâneo.
Não se havia noticias do mundo de fora, até eu fazer quinze anos. Quando
completei essa idade, eu e meu melhor amigo Josh saíamos do buraco, mesmo sendo
contra as regras.
O mundo voltou a ser selvagem. Eram árvores para todos os lado, plantas
cresciam em ruínas de prédios e carros corroídos pelo tempo.
Quando completei dezoito anos e Josh vinte, as pessoas no buraco começaram a
passar fome. As plantações subterrâneas não davam alimento suficiente para
todos. Então eu e Josh começamos a sair escondidos para procurar alimento.
Colhíamos, caçávamos, éramos os rebeldes do buraco... E sim, haviam mais de
nós, cada um de um buraco diferente, o que eu e Josh acabamos chamando de
províncias.
A melhor época da minha vida, foi quando completei vinte e um e Josh vinte e
três.
Certo dia, Josh disse que me levaria ao lugar mais lindo que ele conhecia.
Chegamos a um prédio em ruínas, mas ainda estava seguro para entrar. Fomos
escalando os escombros até chegar ao telhado, que um dia tinha sido usado para
pouso de helicópteros.
Quando finalmente terminei de subir, meu estômago revirou e por pouco não
vomitei.
- Kat, está perdendo o ritmo.
- Kat, está perdendo o ritmo.
- Não enche Joshua. - Falei e sorri.
- Vem, vai ser a melhor sensação do mundo.
Ele amarrou minha cintura em uma corda e fez a mesma coisa consigo, prendendo
as duas cordas num portão que ainda estava bem forte.
Fomos até a beirada do prédio e olhei para baixo. Eram mais de vinte metros de
queda. O vento estava forte, fazendo com que meus cabelos loiros voassem em
meus olhos.
- Faça o que eu fizer. - Ele falou.
Fechando os olhos, Josh colocou toda a força de seu corpo pra frente e abrindo
os braços, fazendo com que ficasse suspenso contra o vento forte, só as pontas
dos pés tocavam o edifício, era como se ele pudesse voar.
Fiz a mesma coisa.
No começo aquela adrenalina, o perigo de cair, o medo e depois, aquele frio na
barriga, aquela sensação do vento morno batendo em seus olhos.
- Ei Kat, abra os olhos... - Foi o que ouvi da voz de Josh por cima do vento
que corria em meus ouvidos.
Realmente, seria a coisa mais linda que eu veria no mundo. Enquanto o vento me
mantinha suspensa no ar, o pôr do sol atrás dos prédios tirou meu fôlego.
Eu congelei aquele momento. Estava do lado da pessoa que eu mais amava no mundo
e era a coisa mais linda que já vira todos os anos que eu podia recordar.
Demoramos um pouco até pesar nosso corpo pra trás e sermos arremessados pela
força do vento.
Caímos no chão e rimos até nossas barrigas doerem.
- Josh, você é o melhor amigo que eu poderia ter.
- É, eu sei. Sem mim, nesse exato momento, você estaria passando fome naquele
buraco.
Dei um soco em seu ombro.
Ele foi até o andar de baixo.
- O que você vai fazer?!
- Você deve estar com fome, eu vou pegar alguma coisa pra você comer.
Ele voltou com pão e creme de avelã.
- Onde achou isso?! - Falei, sorrindo.
- As fábricas ainda funcionam, sabia? Só que eles não vendem, é tipo um
trabalho escravo pros "seres superiores" e eles acabam
contrabandeando algumas coisas pros rebeldes.
- E eles...
- É, muitos deles continuam passando fome, porque eles não podem comer o que
produzem, há não ser que deixem.
Olhei o pão e me senti um pouco culpada, mas comi mesmo assim, afinal eu estava
com fome.
Guardei um pouco de pão e creme para levar para casa.
- Precisamos voltar, está ficando escuro.
Usávamos um tipo de capa marrom se precisássemos andar há noite. Era nossa
camuflagem, afinal, não tinha mais luz e se fossemos pegos, com certeza
estaríamos mortos.
Fomos o mais rápido que pudemos, entramos no buraco e Josh trancou a porta
atrás de si.
Tiramos os capuzes e penduramos na escotilha, já que éramos os únicos que
tinham coragem de sair a noite.
- Boa sorte com o seu pai hoje.
- Ah, guardei alguma coisa pra ele comer... Vou ficar bem.
Ele me deu um beijo na testa e foi em direção a casa dele. Agora era só
enfrentar o meu pai.
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