domingo, 28 de julho de 2013

Capítulo 05

Nós criamos um tipo de roldana pra subirmos o corpo do garoto.
Assim que o colocamos no terraço ficamos parados examinando o corpo.
- O que acha que devemos fazer com ele? – Falei.
- Vamos dissecar o cérebro e fazer experimentos! – Josh falou, e nós dois começamos a rir.
- Sem esquecer que ele é um de nós, mas tudo bem. Não, mas sério mesmo... O que vamos fazer?
- Podíamos descobrir mais sobre ele...
- Podemos ver o que ele tinha na nave. – Falei.
- É... Vamos lá, antes que fique tarde.
- Espera, vamos amarrá-lo, só para o caso de ele tentar fugir.
- Você faz isso...  Sempre soube dar nós melhores que os meus.
Considerei aquilo como um super elogio e comecei a dar nós nos pulsos e nos tornozelos.
- Pronto... Ele não vai mais conseguir correr.
Descemos o prédio e voltamos até o campo de morangos.
Subimos na nave e quebramos todo o vidro, para que Josh passasse.
Começamos a revirar tudo. Alguns documentos, que diziam que o nome do garoto era Lex, alguma coisa sobre fazer parte do que seria a “aeronáutica” pra eles.
- Se ele é um dos grandes da aeronáutica deles, é a primeira vez que sinto pena dos invasores. – Falei, o que fez Josh rir.
- Kat... Vem dar uma olhada nisso.
Ele segurava uma foto, onde Lex se encontrava ao lado de um homem, na parte de trás da foto, estava assinado “sei que você vai me orgulhar Lex, com amor, seu pai.
- Bem... Devia ser um garoto certinho. – Josh falou.
- Só ver pelo cabelo. – Falei, rindo e lembrando de quando a Terra era praticamente assim.
Coloquei as coisas da nave na cesta de morangos, incluindo a foto e voltamos para o prédio. O garoto ainda estava desacordado.
- Será que ele está vivo? – Josh perguntou, não sei se preocupado ou só simplesmente pra poupar tempo.
Deitei minha cabeça sobre o peito de Lex e ouvi e senti seu coração batendo.
- É... Ele está vivo.
- Não vai demorar muito a acordar... Logo ele vai ficar com fome.
Ficamos sentados ali comendo morangos até que eu comecei a ficar preocupada com Lex.
- Porque ele não acorda?
- Ta com tanta vontade assim de conversar? Eu to aqui!
Dei um soquinho em seu braço e ele riu.
Levantei e peguei água no andar de baixo.
- Quer ter a honra de jogar a água? – Falei.
Josh se levantou e jogou a água em Lex.
Ele tossiu engasgado e abriu os olhos. Eram os olhos verdes mais lindos que eu já havia visto.
- PONTO PRA MIM! YEEEAH! – Josh falou, me levantando no ar.
Quando ele me colocou no chão, ficamos olhando para Lex. Ele ainda estava engasgando.
Me ajoelhei do lado dele e o sentei, dando batidinhas em suas costas.
Quando ele finalmente parou de tossir, ele olhou para o lado e ficou me encarando com os olhos verdes assustados.
- Onde estou? – Ele falou.
Sua voz era rouca e grave.
- Não importa! – Falei.
Me levantei e fiquei ao lado de Josh. Lex nos olhava e depois olhou para os pulsos amarrados.
- Mas o que é isso? Vocês sabem quem eu sou?
- Algum oficial menor da aeronáutica dos “superiores”, seu nome é Lex e você é um desgarrado. – Josh falou.
- Como sabem...?
- Sua nave caiu, nós tiramos você de lá.
Ele ainda olhava para os pulsos presos e ele começou a forçar as cordas, tentando se soltar.
- Não perca seu tempo, ninguém sabe dar nós igual a mocinha aqui. – Josh falou.
- Vocês sabem quem eu sou... Eu poderia saber quem vocês são?
Os olhos dele estavam marejados e por um segundo senti pena dele.
- Sou Katherin e esse é Josh.
- Como me encontraram?
- Nós colhíamos morangos, então, bem... Você sabe.
Ele encostou as mãos amarradas no estômago.
Olhei para Josh e vi que ele estava meio incrédulo por eu estar sentindo pena de Lex.
Andei até onde guardávamos comida e Josh veio atrás.
- Espera, você não vai fazer isso vai? Vai dar comida pra um deles.
- Olha, ele é só um desgarrado, tente entender que ele deve ter feito isso pra conseguir o que comer.
Josh parou e refletiu depois me ajudou a levar algumas coisas para Lex. Por mais que eu odiasse os superiores e qualquer um que se juntasse a eles, eu sabia o que era ficar com fome e não ter o suficiente, e eu não desejava isso pra ninguém.
- Aqui. Coma alguma coisa. – Josh falou, entregando uma das cestas a ele.
Cortei as cordas que o amarravam e ele começou a comer.
Eu e Josh sentamos ao lado dele e comemos o que tínhamos separado para nós.
Um silêncio mortal imperava entre nós três, o que era estranho porque sempre que eu e Josh estávamos juntos, nada fazia silêncio.
- Por quê? – Eu falei, me dirigindo a Lex.
- Desculpe...
- Porque foi pro lado deles? Porque se tornou um desgarrado?
- Desculpe, mas... Eu nasci do lado deles.
Olhei para Josh e nós dois nos levantamos. Josh me colocou atrás dele.
- É um deles? – Josh perguntou.
- Sim, isso é algum problema?
- Você ainda pergunta? – Eu falei.
- Mas por quê? – Lex falou.

Ele só podia estar brincando... Eu via as cenas do massacre se repetindo na minha cabeça.
- Fique em silêncio filha, logo o tio Aleck virá cuidar de você.
- Mas papai, onde você está indo?
- Vou ajudar mais pessoas, já voltamos.
- Mamãe, fica aqui comigo.
- Vou ajudar o papai filha, nós já voltamos.
Ela me deu um beijo na testa e os dois correram para fora da boca de uma caverna onde tinham me deixado. Aleck, que agora eu considerava um pai, chegou chorando e me pegou no colo.
- Onde estão papai e mamãe, tio Aleck?
- Desculpa Kat... Eles não vão voltar.
Me lembro de ter ficado acordada três noites, esperando meus pais voltarem, porque eu não quis acreditar que eles não voltariam mais.

Saí de trás de Josh e virei a mão no rosto de Lex. Josh me puxou pela cintura e eu o abracei. Estava soluçando.
- Hei, Kat, calma... São só lembranças, calma.
Josh passava a mão pelo meu cabelo.
- Desculpe... Mas eu não consigo entender... O que houve com ela? – Lex falou.
- Você só pode estar brincando não é? Faz isso com todo ser humano? Gostam de nos fazer sofrer? Não somos submissos, temos sentimentos, somos rebeldes demais pra sermos governados por vocês! – Eu já estava gritando.
Minhas mãos coçavam com vontade de bater em Lex de novo e de novo e de novo.
- Kat, para! – Josh falou e me carregou no colo até um canto mais afastado do terraço.
Eu não conseguia parar de chorar. Não era mais um choro de tristeza por ter perdido meus pais, era pura raiva.
- Kat, calma, a culpa não é dele.
- Do que você está falando, claro que é!
- Olha, ele tem a sua idade. Quando aconteceu o massacre ele devia estar brincando no planeta dele. Tente se acalmar.
- Josh, não foi você que perdeu os pais ok?! Nesse momento, seus pais estão no buraco, cuidando da Sophie, que tem 10 anos. Você tem uma família, eu só tenho o Aleck e mesmo assim, ele não é minha família.
Josh afundou meu rosto em seu peito.
- Tente relaxar, vou conversar com Lex sozinho.
Josh enrolou a capa dele e me obrigou a ficar deitada.
Acabei dormindo.
E não tive sonhos.

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