segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Capítulo 14

Eu saí do desmaio, mas não acordei.
No meu sonho, eu via Josh falando com Lex. O sonho mudou e eu estava dentro de uma nave com um explosivo na mão. Ouvia-se barulho de alarmes e luzes vermelhas piscavam sem parar.
“Solta isso aí, temos tempo de armá-lo e sairmos daqui” – Lex gritava.
O explosivo não se soltava da minha mão.
“Vamos, seu pai e Josh não vão aguentar muito tempo com aquela nave”
“Mas Josh sabe pilotá-la, ele vai ficar bem.”
Armei o explosivo e ele finalmente se soltou da minha mão.
“Vamos, meu pai está vindo!”
“Você vai matá-lo?”
“Não, ele vai vir para a cápsula de fuga.”
Começamos a correr pela nave e acabamos nos perdendo. Todas as cápsulas de fuga haviam sido usadas, nos deixando presos na nave que explodiria.
“O que vamos fazer?”
“Não se preocupe Kat, vou dar um jeito.”
Faltavam vinte segundos para explodir. Lex mexia em vários monitores, tentando localizar mais cápsulas.
10 segundos...
09 segundos...
“Lex...”
Ele já estava desesperado à procura de cápsulas, mas nenhuma delas respondia o chamado de socorro de dentro da nave.
05 segundos...
“Kat...”
Ele veio até mim e me abraçou.
03...
02...
01...
Tudo explodiu e eu acordei.
Meus pulmões queimavam e as costas ardiam por causa do suor.
- Sonho ruim? – Meu pai perguntou, entrando no quarto com um kit de primeiros socorros.
- É... Pode ser...
- Toma. Vista essa blusa.
Era uma blusa feita com um material diferente, mais leve e suave. A blusa cobria a parte da frente e deixava as costas e os braços à mostra.
- Obrigada pai.
- Agora venha, tenho que limpar os ferimentos e fazer o curativo.
Tentei não gritar dessa vez, mas ainda ardia e doía até os ossos. A melhor parte, foi quando ele fez o curativo.
Ele colocou um líquido gelado que eu não sei o que era, mas era refrescante e fez com que a dor parasse.
- Bem... Isso está bem feio.
Virei-me de costas e tentei olhar um pouco pelo espelho. Os cortes ocupavam todo o pedaço de pele e a maioria deles eram profundos.
Os cortes de meus braços e de meu rosto já haviam cicatrizado e desaparecido, deixando algumas cicatrizes bem claras, quase invisíveis.
Os cortes das pernas estavam cicatrizados, mas as cicatrizes que deixaram eram horríveis.
Olhei para meu pai, que tinha uma cara de preocupação. Sorri para ele, o que o fez ficar mais aliviado.
- Ainda estou apresentável pai.
Ele me deu um beijo na testa.
- Josh voltou pela madrugada. Falou algo sobre “o plano está em andamento”.
Fechei os olhos e suspirei aliviada.
- Preciso falar com ele.
- Vou chamá-lo.
- Não pai... Eu tenho que ir.
Ele espremeu os lábios, mas logo abriu um sorriso.
- Seu pai ficaria orgulhoso de você.
Olhei o relógio, cinco e meia da manhã, estava quase na hora da minha execução, mas eu não ligava, iria andar pelo subterrâneo assim mesmo.

[...]

Fui até a casa de Josh.
A população era obrigada a acordar cedo em dias de execução, porque os executados serviriam de exemplo para que ninguém cometesse o mesmo erro.
No caminho, todos os olhos se voltavam para mim, afinal as roupas curtas e decotadas e meus cortes chamavam o máximo de atenção possível.
- Olha quem acordou. – Josh falou, vindo me dar um abraço.
Ele tomou cuidado com minhas costas.
- Posso?
Assenti e ele me virou para examinar meus cortes.
- Uau... Você está...
- Eu sei... Sou a noiva do Frankenstein.
- Não... Você está linda, essas cicatrizes te deram um ar mais... radical!
- Ai que idiota!
Eu consegui rir, meu rosto já não doía mais.
- Olha, me desculpa... Pelo beijo e tal.
- Beijo? Que beijo? – Falei, sorrindo.
Ele sorriu e passou o braço pelo meu ombro.
- Vamos, está na hora da sua execução.

[...]

A execução seria às sete da manhã.
Josh me levou para comer alguma coisa antes de irmos para a praça.
As meninas da minha idade olhavam para minhas cicatrizes. Eu tinha um joelho roxo pelo tombo que levei no dia anterior. O lugar onde a mãe de Josh havia me dado um soco tinha um hematoma arroxeado, mas quase desaparecendo.
Comemos pão com creme de avelã e isso era quase dizer adeus, de alguma maneira.
- Josh... Se eu não morrer, quero morar na superfície, mesmo que o plano de Lex não dê certo. Quero tirar você e meu pai daqui.
- Primeiro: Você não vai morrer, pare de falar isso. Segundo: É claro que iremos com você!
Eu sorri. Como ele podia ter tanta certeza de que eu não morreria?!
O relógio bateu sete da manhã. O cheiro de pão e café recém-feitos saia de restaurantes e de bares.
Era uma maneira agradável de morrer, ao cheiro de pão fresquinho e café quente.
Josh me levou até onde estava sua mãe, não soltou minha mão por um segundo.
- Você me envergonha garoto. – A mãe dele disse.
Josh olhou pra mim e sorrimos.
Ele me deu um beijo demorado na testa.
Não parecia que eu seria executada, eu estava muito feliz para quem seria decapitada, ou assassinada a tiro, ou seja lá a forma como iam me matar.
Subi até um pedestal e lá tinha uma cadeira elétrica.
- Porque não me matam de um jeito mais simples? – Falei.
- O que queria? Ser decapitada? – Falou o carrasco.
- Talvez um tiro na testa fosse melhor. – Falei.
Mantiveram-me de pé, não sei exatamente pra quê o hino do que um dia fora os Estados Unidos tocou.
A mãe de Josh permanecia em pé ao meu lado.
Quando o hino acabou, o lugar foi tomado por um silêncio mortal.
- Queridos cidadãos do subterrâneo, aqui está Katheryn. Acusada de traição, desacato a autoridade, assassinato do líder do Conselho, senhor Lerangis e saída dos túneis, podendo trazer risco a vida dos outros moradores.
Eu tinha um sorriso irritante em meus lábios e meus olhos eram irônicos, por mais que eu não quisesse expressar nada.
- O Conselho votou, e ela morrerá na cadeira elétrica.
Levantei a cabeça para o alto e bufei uma risada.
- Quais são suas últimas palavras?
- Espero que um dia, toda a população do túnel acorde e veja o que vocês estão fazendo... Acho que essa cadeira servirá pra você um dia, senhora Campbell.
A mãe de Josh me prendeu na cadeira.
- Você devia estar com uma aparência pior, ainda vai morrer bonita demais.
- Obrigada pelo elogio. – Falei.
Ela se afastou e pediu que o carrasco ligasse a cadeira.
Fechei os olhos e me preparei para o choque, quando a energia foi cortada e tudo mergulhou em completa escuridão.
As pessoas não paravam de falar e não havia nada para iluminar o lugar.
- Fique em silêncio. – Uma voz falou atrás de mim, enquanto soltava minhas mãos.
Aquela voz era inconfundível.
Josh era a pessoa mais esperta que eu conhecia. Ele deu um jeito de convencer a me colocarem na cadeira para que pudesse ter um motivo para minha execução ser interrompida completamente na escuridão, assim ninguém veria Lex ali.
Enquanto Lex me soltava, a mãe de Josh tinha alguns ataques de nervos ao lado da cadeira.
- Segure minha mão e não solte.
Segurei sua mão o mais firme possível. Senti um embrulho no estômago e quando percebi estávamos na caixa de força do subterrâneo.
- Como você...?
- Teletransporte é um dos meus poderes.
Não consegui ficar séria naquelas circunstâncias.
- Josh, pronto pra ligar a energia? – Lex falou.
- Acho melhor pegar Aleck primeiro, o Conselho vai atrás dele, é melhor sairmos todos juntos.
Lex desapareceu de novo.
- Vocês mudaram o plano? – Perguntei.
- Não... Só criamos um pra te salvar.
Lex apareceu a minha frente com meu pai.
- Vou levá-los lá pra fora, já venho te buscar. – Lex falou para Josh.
Ele pegou minha mão e saímos do lado de fora da escotilha.
Lex desapareceu de novo. Ouvi o estalo da energia do subterrâneo e os dois apareceram.
- Precisamos correr, eles virão atrás de nós. – Josh falou.
Começamos a correr.
- Pra onde estamos indo? – Meu pai falou.
- Para o esconderijo, senhor. – Josh falou.

Logo estávamos escalando o prédio e estávamos em completa segurança.

Capítulo 13

Mandaram outra pessoa do Conselho ir falar com a população, e agora eu podia tirar a conclusão do atirador. Colocaram a mãe de Josh para falar.
Me levaram para o centro da praça, onde me empurraram e caí de joelhos.
Meus olhos pesavam e a cada respiração, sentia meus pulmões queimaram por causa dos cortes.
- Vocês estão perplexos não é? Nunca em treze anos de subterrâneos, alguém havia quebrado tanto as regras e agora vocês veem o que acontece a quem infringe as leis.
Ela andou até mim e o homem do chicote me colocou de pé, apertando os cortes em meus braços.
A mãe de Josh apertou minhas bochechas, fazendo com que eu ficasse com a cabeça virada para ela.
- Está orgulhosa do que fez, Katheryn?
- Mais orgulhosa impossível! – Falei.
Ela me deu um soco na bochecha esquerda, fazendo com que eu caísse no chão novamente.
Acho que o Conselho fora decidido da seguinte maneira: Você tinha que saber falar, saber convencer as pessoas, ter força e habilidades em lutas.
Eu não estava sentindo meu maxilar. Não digo que havia quebrado, mas estava tão contundido que eu não sentia mais nada.
- Isso está sendo uma lição pra vocês. E crianças... Sei que estão vendo, espero que nunca façam isso...
- Já chega!
Ouvi a voz de Josh e suspirei.
- Isso é um absurdo, é uma crueldade.
- Não interfira.
- Me chicoteie também! Sou seu filho, mas fiz as mesmas coisas que ela. E quer saber... Eu tive contato com os superiores.
Eu senti todos pararem de respirar ao mesmo tempo. Josh estava tão preocupado em me tirar dali que eu estava ficando com medo de o matarem.
- Como pôde? – A mãe dele falou.
- Assim como ela, tenho meus motivos mamãe... Saíamos juntos pra conseguir comida.
Josh tinha um lado político e sempre achei que ele podia fazer parte do Conselho para que fosse mais justo.
- Vejo várias pessoas do subúrbio aqui e vocês podem dizer pra nós... Quando começou a escassez de comida, quem dava comida a vocês?
Um burburinho começou e eu sabia que eram as pessoas do subúrbio.
- Quem ajudava vocês a sobreviver?
O burburinho aumentou e eu estava me sentindo cada vez melhor.
- Enquanto o Conselho cuidava somente do centro, deixaram adolescente resolverem os problemas sérios e saírem do subterrâneo em busca de comida para pessoas que nem mesmo se conheciam.
Eu sabia que todos que estavam falando era jovens e adultos do subúrbio.
- Não queremos começar uma rebelião aqui mãe. Só queremos mostrar que sair não é o problema.
A mãe de Josh pegou uma arma e deu tiros para o alto, provocando um silêncio total.
- Amanhã, estejam todos na praça às sete da manhã para a execução de Katheryn. Se não fosse por ela, nada disso estaria acontecendo.
Ouvi Josh tentando argumentar, as pessoas voltavam para suas casas, todos voltavam a fazer o que estavam fazer da melhor maneira possível depois daquele choque.
Antes do homem do chicote ir embora, ele me deu um bico na costela direita e foi a primeira vez que gritei de dor.
Ele foi embora e me deixou ali, largada no meio da praça.
Eu estava com medo de desmaiar e não acordar mais. Estava como uma dor latejante na cabeça, mas me esforçava para me manter acordada.
Os guardas finalmente soltaram meu pai, que veio correndo em minha direção.
- Oh meu Deus Kat! Seu pai me mataria.
- Por favor, não fale nada. – Falei. – A culpa não é sua.
Vi que os guardas quebraram minhas flechas e colocaram fogo em meu arco.
- Eu... Eu vou cuidar dos seus cortes. – Meu pai falou.
- Não precisa papai... Não ouviu? Vou morrer amanhã.
- Não falei isso.
Ele me pegou no colo e me levou para casa.
Meu pensamento ia ao encontro de Lex... Se ele tivesse conseguido falar com o pai dele e o pai dele tivesse sido mais paciente, o plano daria certo, com ou sem mim.
Meu pai me deitou na cama e tirou minhas roupas para começar a fazer os curativos.

[...]

A cada vez que meu pai passava água oxigenada em meus cortes, eu gritava de dor e começava a chorar. Sei que isso não ajudava meu pai em nada, mas toda a dor que eu havia absorvido na hora das chicotadas eu estava extravasando ali.
Meu pai se desculpava o tempo todo, mas eu não podia falar que não era culpa dele, eu estava ocupada soluçando.
Talvez, pensei, eu não fosse Cosette, ela era uma dama, não o meu caso.
Meu pai disse que eu teria que ficar sem blusa, porque minhas costas estavam muito ruins.
Coloquei um short e deitei de bruços na cama, ocultando meus seios.
Meu pai foi até a cozinha fazer algum remédio para os cortes no rosto cicatrizarem mais rápido.
- Filha... – Ele falou, entrando no quarto. – Josh quer vê-la, posso deixá-lo entrar.
- Uhun. – Falei.
Josh entrou e ficou um pouco sem graça. Não sei se foi por me ver praticamente nua, ou se por ver meu estado deplorável.
- Que confusão você se meteu hein Kat...
- Pois é... E você ainda está bonito. – Falei, o que o fez rir.
Eu só sorri, porque tudo doía... Até sorrir era difícil.
- Faça um favor pra mim, por favor, não recuse. – Falei.
Ele se abaixou ao meu lado, ficando de frente para o meu rosto.
- Fale com Lex... O plano tem que continuar comigo viva ou morta. Pode ser a única chance de salvar o planeta.
- Ei cale a boca, você não vai morrer. – Ele falou e se levantou.
- Faça isso pra mim... Por favor...
- Onde ele está?
- Talvez não o encontre no prédio agora, mas logo ele vai voltar.
- Eu vou, pode ficar tranquila.
Ele olhou todo o meu corpo.
- Me desculpe Kat...
- Não se desculpe... Você matou Lerangis.
Ele sorriu, o que eu entendi como uma confissão silenciosa.
- Vou falar com Lex, me deseje sorte.
- Prometa que vai voltar pra me ver antes de morrer. – Falei.
Ele mordeu o lábio inferior.
Se abaixou ao meu lado de novo e me deu um beijo demorado na testa.
- Você não vai morrer.
Ele se levantou e saiu do quarto.

A dor na cabeça ficava cada vez mais forte até finalmente tomar o meu corpo e me fazer desmaiar.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Capítulo 12

Andei em silêncio absoluto até o prédio, pensei em minha discussão com Josh e no meu provável banimento.
Eu estava completamente perdida emocionalmente, eu queria só... Ficar sozinha.
Quando cheguei perto do prédio, pude ver a silhueta de Lex no terraço. Os cabelos cacheados voando com o vento.
Lex não devia estar me esperando, ainda estava muito cedo pra eu aparecer, então... O que ele estava fazendo.
Subi o prédio e lá estava ele.
- Tão cedo?
- Pois é. – Falei, ajeitando a alça da aljava, que começava a me enforcar.
Ele me olhou preocupado.
- Você está bem?
Eu comecei a chorar.
Não queria parecer fraca, mas era o meu estado no momento. Estava fraca, desmoronando, a minha vida mudou muito rápido em questão de dias, e eu ainda não estava acostumada.
Lex me abraçou e ficou passando a mão pelo meu cabelo, que ainda estava solto e não com a trança de sempre.
- Josh gosta muito de você Kat... Ele não fez isso pra te magoar, era só uma maneira de se aproximar.
- Mas porque ele esperou eu sentir isso por outra pessoa?
- Outra pessoa?
Eu me calei, não queria dizer a Lex o que eu sentia por ele. Ainda não.
- É... Eu não sinto nada pelo Josh... Mas ele é meu melhor amigo!
- Acho que você tem que esperar isso esfriar um pouco. Os dois estão nervosos com o seu provável banimento... Talvez precisem descansar a cabeça.
Assenti e ficou tudo em silêncio de novo.
Depois de alguns minutos, foi que percebi que Lex segurava a minha mão.
- Preciso levar comida para o meu pai... Eles vão fechar o buraco.
- Eu te ajudo como puder. – Ele falou, um pouco constrangido por não saber fazer nada.
Sorri e descemos o prédio.

[...]

As arapucas que tínhamos montado no dia anterior tinham pegado dois coelhos e alguns pássaros e achei que aquilo estava bom para levar ao meu pai. Com sorte duraria pelo menos um mês, afinal, era só o meu pai.
- Hei Kat... É boa no arco? – Lex perguntou, desafiador.
- Claro que sou... Modesta a parte.
- Quero ver.
- Ótimo... O que devo fazer?
Ele apontou para um árvore.
- O esquilo... Acho que dará mais alguns dias de comida para o seu pai não é?
Ele tinha razão.
Preparei a flecha e mirei o alvo. Ele não parava de se mexer, mas já havia caçado esquilos antes.
Sei que era errado matar aqueles bichinhos, mas era uma questão de sobrevivência.
Eu pedia desculpas sempre antes de soltar a flecha e atingir o alvo na cabeça. Morte rápida e sem dor. Quase nunca errei um tiro.
- Uau! – Lex aplaudiu e depois correu até o lugar onde estava o esquilo.
Ele trouxe o esquilo segurando pela flecha ainda presa no crânio do bicho.
- Você mirou aí de propósito?
- Eles não merecem sofrer... Tento poupar o sofrimento deles.
Coloquei o esquilo num saco de pano junto com os coelhos.
Isso era meio nojento, principalmente se você sempre comprou carnes em bandejas de isopor no supermercado, mas o mundo havia mudado e as carnes de supermercado haviam apodrecido à anos.
Lex se ofereceu para levar o saco enquanto eu levava os pássaros pelos pés.
Passamos mais algum tempo em silêncio andando em direção ao prédio.
- Olha, sobre o seu plano... Preciso que ele entre em ação o mais rápido possível.
- Tem uma coisa que não te contei.
Respirei fundo, eu estava preocupada com o que viria.
- Consertei a nave... Posso voltar e falar com meu pai hoje mesmo.
- Isso... Seria maravilhoso. – Falei, abrindo um sorriso.
Peguei o saco de pano e pendurei no ombro.
- Vai, eu vou para o buraco sozinha sem problemas. Quando mais rápido o plano funcionar, mais vantagem teremos.
- Acredita mesmo que possa dar certo?
Pensei um pouco.
Lex era um oficial que havia sofrido um acidente, o máximo que poderia acontecer era internarem Lex, alegando que havia batido a cabeça forte demais.
Tinha grandes chances de funcionar.
- Acredito.
Ele sorriu e não pude deixar de sorrir também.
- Confie em mim, vou voltar pra você.
Lex saiu correndo em direção ao campo de morangos, deixando o final da frase ecoando no vento.
Eu vou voltar pra você”, pareceu uma promessa forte demais pra mim. Não podíamos prometer nada um para o outro, éramos de mundos diferentes, éramos inimigos mortais, e estávamos prometendo voltar um para o outro.
Essa lógica não estava certa.
Corri na direção do buraco para dar tempo de entrar e entregar tudo ao meu pai antes que me detivessem.

[...]

Entrei em casa e coloquei tudo sobre a mesa da cozinha. A casa estava vazia e eu sabia onde meu pai estava.
Fui andando em direção ao centro, ainda meio suja da poeira do lado de fora e com a capa presa as costas, a aljava com as flechas estava pendurava a tira colo e meu arco estava em minhas mãos.
A praça estava cheia de gente, sim, a humilhação pública.
O tempo havia passado rápido demais e provavelmente Lex já estava conversando com o pai, pelo menos, eram as contas que eu tinha feito mentalmente. Pena que eu era ruim em matemática.
Meu pai fora colocado no centro da praça, ao lado de onde agora estava Lerangis, líder do Conselho, do Parlamento e do buraco.
- Atenção, habitantes do subterrâneo, esse homem, que muitos de vocês conhecem por vender medicamentos e alimento a vocês não passe de um traidor.
E era assim que os “políticos” do subterrâneo agiam... Colocavam toda a população contra quem eles achassem que estivesse errado.
- Todos os produtos dele vêm da superfície e sabemos que a superfície se tornou um lugar radioativo desde o massacre.
A multidão começou a fazer barulho. Todos estavam insatisfeitos. Deviam querer jogar pedras no meu pai, mas eu não iria permitir.
- Vocês acham que o banimento dele devia ser imediato?
A multidão gritava e eu não conseguia ouvir mais nada.
Meus olhos encontraram os do meu pai e ele conseguiu sorrir.
Abri caminho entre as pessoas e quando dei por mim estava para ao lado de Lerangis, apontando uma flecha para a sua cabeça. E como vocês sabem... Eu era boa nisso.
- Pare com isso Lerangis, sabe que está mentindo. – Falei.
A multidão havia se calado, todos estavam tensos. A vida de um subterrâneo estava em minhas mãos.
- Como ousa voltar?
- Já disse o que tinha que dizer? Agora é a minha vez de falar com eles. – Falei.
Baixei a flecha, deixei a aljava de lado e me dirigi para as pessoas que estavam olhando para nós.
- População do subterrâneo. É verdade que vocês conhecem o senhor Aleck por vender alimentos e medicamentos. É verdade também que é proibido sair dos túneis. Mas já pararam pra pensar que sem os medicamentos e os alimentos da superfície vocês estariam mortos?
Meus olhos correram rápidos pela multidão, procurando por Josh, mas não consegui achá-lo. Talvez ele nem estivesse ali.
- Se a superfície é tão radioativa assim, porque eu ainda estou viva se vou lá desde os meus quinze anos? – Falei, me dirigindo a Lerangis.
Parte da população começava a falar, gerando um burburinho incessante.
- Mas lá é perigoso demais. – Lerangis falou. – Você devia estar morta. Devíamos matar você agora.
- Está certo que a superfície é perigosa. Está certo que lá tem animais que podem matar e claro, os temidos superiores.
Assim que terminei a frase, todos se calaram.
- Em todos esses anos, nunca vi um superior na superfície, isso até uma nave cair. Assim que a nave caiu, corri para um esconderijo e não me acharam. Não representaram ameaça alguma.
Os olhos pulavam de mim para Lerangis como se assistissem uma partida de ping-pong.
- Se representassem uma ameaça tão grande assim, teriam me seguido e destruído os túneis, mas eles não fizeram isso. E sabem por quê? Porque somos fracos demais. Oprimidos. Sem liberdade nenhuma. Me considero com sorte por ter passado dias do lado de fora aprendendo coisas que vocês não saberão, há não ser que saiam.
Senti uma pontada nas costas e logo depois a ardência de um corte.
Vi meu pai gritar com o homem que havia acabado de me dar uma chicotada nas costas.
- Retire o que disse. – Lerangis falou.
- Palavras não vão me ameaçar senhor. – Falei, conseguindo formar um sorriso nos lábios.
As chicotadas vieram cortantes, meu pai gritava enquanto dois homens os seguravam pelos braços.
Lerangis esperava que eu fosse gritar, mas a cada chicotada eu absorvia a dor e fechava os olhos, sem fazer nenhum barulho.
Quando as chicotadas finalmente pararam, eu já estava no chão. Sentia gosto de sangue e senti que tinha cortes na bochecha e na testa. Meu corpo estava tremendo e então comecei a sentir a dor em certos pontos: costas, pernas, braços e rosto.
Meu cabelo caía sobre meus olhos, mas ainda assim podia ver o pavor no rosto das pessoas que faziam um silêncio mortal.
- Isso é o que acontece com quem quebra as leis do subterrâneo. Alguém mais se arrisca a desafiar as leis?
Não sei o que aconteceu no momento seguinte. Ouvi o barulho de uma arma de plasma e logo o corpo de Lerangis caiu ao meu lado.
O silêncio continuou, estavam todos perplexos demais.
Dei uma olhada no tiro. No meio da testa.

E eu tinha certeza de quem havia atirado... Josh.