quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Capítulo 09

Depois de andar muito e subir metade de uma montanha, nós finalmente chegamos.
- Como achou esse lugar? – Lex perguntou, colocando as mãos sobre os joelhos.
- Um dia, eu estava sozinha. Josh teve que cuidar de Sophie, ela ainda era um bebê. Eu fui andando e bem, encontrei esse lugar.
Ele parou atrás de mim, o que me fez parar de subir.
- O que houve? – Falei.
- Quer dizer que... Ninguém sabe desse lugar?
- É, só eu... E agora você.
Não sabia o que ele queria dizer com essa pergunta, mas continuei subindo, sem pensar muito nela.
Chegamos à entrada de uma caverna, o meu lugar favorito no mundo.
- Não faça barulho lá dentro. E cuidado com a cabeça.
Lex assentiu com a cabeça e nos abaixamos para entrar.
O lugar era completamente escuro, o que me deu medo na primeira vez que fui, mas alguma coisa me deu coragem pra continuar andando.
No final, o corredor estreito da caverna se abria em um lugar iluminado, não por luz natural...
- O que é isso?
- Já ouviu falar em vaga-lumes? Eu não sei o que esses têm de diferente, mas eles só tinham uma cor e brilhavam só em uma parte do corpo... Esses são coloridos e brilham por inteiro.
As luzinhas eram azuis, verdes, vermelhas, amarelas, e o bater das asas era o que deixava o lugar ainda mais bonito. Aquilo me lembrava o céu à noite e eu era apaixonada pelas estrelas.
- Sabe por que pedi pra fazer silêncio? – Falei.
- Por quê?
- Olhe.
Bati palmas uma vez, o som ecoou pela caverna e só os de cor vermelha ficaram acesos. Assoviei e os vermelhos se apagaram dando lugar aos verdes. Pulei, fazendo barulho com os pés no chão e os amarelos apareceram.
- Agora é a minha parte favorita. – Falei.
Comecei a cantar uma música que meu pai cantava pra mim quando eu era criança. Era sobre um castelo nas nuvens, e ele dizia que era de um musical famoso e que um dia eu poderia fazer parte do elenco em um teatro, e esse dia não chegou, e não vai chegar mais.
Todos os vagalumes se apagaram enquanto eu cantava, e os azuis piscavam no ritmo da música. Quando acabei de cantar, tudo ficou escuro, eles demorariam um tempo até voltarem a brilhar. Não sei se eles haviam absorvido a tristeza da música, ou se eles apenas precisavam de tempo para repor a energia que haviam gasto brilhando.
Respirei de olhos fechados, estava tentando não chorar, porque tinha muito tempo que não cantava aquela música, e o pior, é que eu nunca soube o que acontecia com a menina que cantava essa música.
Apertei meus olhos com força e senti uma lágrima escorrer, e acho que os vagalumes já tinham voltado a brilhar, porque Lex me virou e limpou minha lágrima.
- Você está bem?
- Estou... Sim... Tudo bem. – Falei.
Respirei fundo e engoli a vontade de chorar. Eu não queria chorar na frente de Lex, ainda não confiava tanto nele a ponto de chorar na sua frente.
- Vem, ainda tem mais uma coisa pra te mostrar.
A caverna continuava com um corredor que descia. Nas paredes haviam desenhos antigos que eu nunca consegui decifrar o que eram, mas eu adorava aqueles desenhos. No final do corredor havia uma piscina rasa e imensa, eu nunca conseguira ir ate o final dela.
Olhei para Lex e não pude deixar de sorrir.
- Porque o chão brilha? São vaga-lumes?
- Não. Que vir comigo?
Coloquei um pé sobre o tapete, eram borboletas. Maiores do que as normais, elas tinham algum tipo de mutação. Eram azuis fluorescentes com detalhes pretos.
Comecei a correr sobre o tapete de borboletas e elas voavam por toda a parte, mas não saiam da caverna. Parei um pouco, não para recuperar o fôlego, mas para olhar o lugar.
O teto da caverna ainda estava muito alto, fazendo com que as borboletas tivessem espaço suficiente pra voar sem precisar sair.
Então, eu olhei pra frente. Lex estava iluminado pelas luzes azuis que iluminavam o lugar. Os olhos agora tinham um tom azulado e os cabelos castanhos cacheados estavam meio bagunçados. Ele vinha andando devagar e olhando bem nos meus olhos. Foi chegando cada vez mais perto até grudar seu corpo ao meu. Ele era alto e eu precisei olhar pra cima pra continuar olhando praqueles olhos claros.
Ele encostou seu nariz com o meu, e eu podia sentir o peito dele subindo e descendo por causa de sua respiração.
Então ouvi um estalo mental e comecei a rir, deslocando meu rosto e encostando minha testa em seu peito.
- O que houve? – Ele falou, rindo
- É que... Isso só pode ser brincadeira. – Falei.
- O que é brincadeira?
- Você está... Flertando, comigo.
- Estou.
Então eu parei de rir. Minha respiração começou a ficar ofegante, eu estava ficando nervosa de verdade, e era a primeira vez que eu me sentia daquele jeito.
Desviei os olhos para o chão, procurando espaço pra respirar. Parecia que tinham tirado todo o oxigênio daquela caverna.
Ele me abraçou pela cintura e levantou meu rosto. Ele não disse nada, apenas sorriu e beijou a ponta do meu nariz, o que me deixou mais relaxada.
- Eu sei que eu preciso ganhar sua confiança primeiro Kat. Não vou te beijar... Ainda não.
Então eu me larguei e o abracei, a tensão havia saído dos meus ombros, das minhas costas, do meu corpo em si.
Acabamos sentados no chão vendo as borboletas que continuavam voando.
Uma delas pousou em meu cabelo e eu a peguei com as mãos, acho que elas já haviam se acostumado com a nossa presença e viram que não éramos hostis.
Com a borboleta ainda em minhas mãos me virei para Lex.
- Está vendo isso?
- A borboleta?
- Não só ela... O comportamento dela. Confiança. Coragem. Estamos esse tempo todo aqui e uma delas veio testar se éramos hostis ou não.
- Acho que meu povo devia ser como elas.
Passei a borboleta para a mão dele e ele logo a soltou e a deixou voar novamente.
Olhei para ele sorrindo.
- Como as pessoas não viram esse lugar? – Lex me perguntou.
- Acho que ele não existia antes de vocês virem. Acho que essas borboletas não existiam antes de vocês.
Ficamos em silêncio por um tempo, vendo as borboletas começarem a pousar ao nosso redor.
- Na verdade, acho que a invasão não foi tão ruim... Só deviam ter poupado o medo e o massacre que causaram.
- Tem medo de mim Kat?
- Eu tinha... Não tenho mais.
- Sabe que somos perigosos não é?
- Armas e guerreiros existem pra isso, e acho que sei lutar.
- Você e Josh correm muito perigo andando por ai sem armas, podemos estar em qualquer lugar. Podemos estar invisíveis...
- Agora eu sei.
- Acho que o arco e flecha deveriam andar com você por todo o lado, e acho que Josh poderia tem uma arma também. Não gosto de ver vocês vulneráveis.
Lex se preocupava, não só comigo como com Josh e isso estava colocando na minha mente que ele era uma pessoa confiável.
Nos levantamos e começamos a sair da caverna, passando pela galáxia de vagalumes que tinham voltado a brilhar intensamente.
Quando dei por mim já estava escurecendo e eu teria que deixar Lex no prédio e voltar para o buraco.
A caminhada para o prédio foi percorrida em silêncio, a única coisa que se ouvia era o som dos nossos passos e das nossas respirações.
Finalmente chegamos e o sol já não aparecia mais, o dia tinha ficado nublado e estava na hora de ir pra casa.
- Sabe, acho que vai ser difícil. – Lex falou, quebrando o silêncio.
- Difícil? O que?
- Conquistar sua confiança.
- Acho que não... Você está me provando o contrário.
- Sério mesmo?
- É... Só que, se estiver mentindo, não deixe eu saber, ou então você será um homem morto. – Falei, o que o fez rir.
- Vou deixar o seu planeta com a tripulação, vou devolver a sua terra ao seu povo, vou devolver sua liberdade.
Eu sorri e dei um beijo em sua bochecha.
- Boa noite Lex.
- Boa noite Kat.
Ele subiu o prédio e eu continuei meu caminho em direção ao buraco.
Eu não podia acreditar, que depois de tantos anos odiando os superiores, querendo explodir uma rebelião para que voltássemos a ser livres, eu iria acabar me apaixonando por um deles.
E o pior.

Era um deles que me ajudaria a libertar o planeta.

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