Depois
de andar muito e subir metade de uma montanha, nós finalmente chegamos.
-
Como achou esse lugar? – Lex perguntou, colocando as mãos sobre os joelhos.
- Um
dia, eu estava sozinha. Josh teve que cuidar de Sophie, ela ainda era um bebê.
Eu fui andando e bem, encontrei esse lugar.
Ele
parou atrás de mim, o que me fez parar de subir.
-
O que houve? – Falei.
-
Quer dizer que... Ninguém sabe desse lugar?
-
É, só eu... E agora você.
Não
sabia o que ele queria dizer com essa pergunta, mas continuei subindo, sem
pensar muito nela.
Chegamos
à entrada de uma caverna, o meu lugar favorito no mundo.
-
Não faça barulho lá dentro. E cuidado com a cabeça.
Lex
assentiu com a cabeça e nos abaixamos para entrar.
O
lugar era completamente escuro, o que me deu medo na primeira vez que fui, mas
alguma coisa me deu coragem pra continuar andando.
No
final, o corredor estreito da caverna se abria em um lugar iluminado, não por
luz natural...
-
O que é isso?
-
Já ouviu falar em vaga-lumes? Eu não sei o que esses têm de diferente, mas eles
só tinham uma cor e brilhavam só em uma parte do corpo... Esses são coloridos e
brilham por inteiro.
As
luzinhas eram azuis, verdes, vermelhas, amarelas, e o bater das asas era o que
deixava o lugar ainda mais bonito. Aquilo me lembrava o céu à noite e eu era
apaixonada pelas estrelas.
-
Sabe por que pedi pra fazer silêncio? – Falei.
-
Por quê?
-
Olhe.
Bati
palmas uma vez, o som ecoou pela caverna e só os de cor vermelha ficaram acesos.
Assoviei e os vermelhos se apagaram dando lugar aos verdes. Pulei, fazendo
barulho com os pés no chão e os amarelos apareceram.
-
Agora é a minha parte favorita. – Falei.
Comecei
a cantar uma música que meu pai cantava pra mim quando eu era criança. Era
sobre um castelo nas nuvens, e ele dizia que era de um musical famoso e que um
dia eu poderia fazer parte do elenco em um teatro, e esse dia não chegou, e não
vai chegar mais.
Todos
os vagalumes se apagaram enquanto eu cantava, e os azuis piscavam no ritmo da
música. Quando acabei de cantar, tudo ficou escuro, eles demorariam um tempo
até voltarem a brilhar. Não sei se eles haviam absorvido a tristeza da música,
ou se eles apenas precisavam de tempo para repor a energia que haviam gasto
brilhando.
Respirei
de olhos fechados, estava tentando não chorar, porque tinha muito tempo que não
cantava aquela música, e o pior, é que eu nunca soube o que acontecia com a
menina que cantava essa música.
Apertei
meus olhos com força e senti uma lágrima escorrer, e acho que os vagalumes já
tinham voltado a brilhar, porque Lex me virou e limpou minha lágrima.
-
Você está bem?
-
Estou... Sim... Tudo bem. – Falei.
Respirei
fundo e engoli a vontade de chorar. Eu não queria chorar na frente de Lex,
ainda não confiava tanto nele a ponto de chorar na sua frente.
-
Vem, ainda tem mais uma coisa pra te mostrar.
A
caverna continuava com um corredor que descia. Nas paredes haviam desenhos
antigos que eu nunca consegui decifrar o que eram, mas eu adorava aqueles
desenhos. No final do corredor havia uma piscina rasa e imensa, eu nunca
conseguira ir ate o final dela.
Olhei
para Lex e não pude deixar de sorrir.
-
Porque o chão brilha? São vaga-lumes?
-
Não. Que vir comigo?
Coloquei
um pé sobre o tapete, eram borboletas. Maiores do que as normais, elas tinham
algum tipo de mutação. Eram azuis fluorescentes com detalhes pretos.
Comecei
a correr sobre o tapete de borboletas e elas voavam por toda a parte, mas não
saiam da caverna. Parei um pouco, não para recuperar o fôlego, mas para olhar o
lugar.
O
teto da caverna ainda estava muito alto, fazendo com que as borboletas tivessem
espaço suficiente pra voar sem precisar sair.
Então,
eu olhei pra frente. Lex estava iluminado pelas luzes azuis que iluminavam o
lugar. Os olhos agora tinham um tom azulado e os cabelos castanhos cacheados
estavam meio bagunçados. Ele vinha andando devagar e olhando bem nos meus
olhos. Foi chegando cada vez mais perto até grudar seu corpo ao meu. Ele era
alto e eu precisei olhar pra cima pra continuar olhando praqueles olhos claros.
Ele
encostou seu nariz com o meu, e eu podia sentir o peito dele subindo e descendo
por causa de sua respiração.
Então
ouvi um estalo mental e comecei a rir, deslocando meu rosto e encostando minha
testa em seu peito.
-
O que houve? – Ele falou, rindo
-
É que... Isso só pode ser brincadeira. – Falei.
-
O que é brincadeira?
-
Você está... Flertando, comigo.
-
Estou.
Então
eu parei de rir. Minha respiração começou a ficar ofegante, eu estava ficando
nervosa de verdade, e era a primeira vez que eu me sentia daquele jeito.
Desviei
os olhos para o chão, procurando espaço pra respirar. Parecia que tinham tirado
todo o oxigênio daquela caverna.
Ele
me abraçou pela cintura e levantou meu rosto. Ele não disse nada, apenas sorriu
e beijou a ponta do meu nariz, o que me deixou mais relaxada.
-
Eu sei que eu preciso ganhar sua confiança primeiro Kat. Não vou te beijar...
Ainda não.
Então
eu me larguei e o abracei, a tensão havia saído dos meus ombros, das minhas
costas, do meu corpo em si.
Acabamos
sentados no chão vendo as borboletas que continuavam voando.
Uma
delas pousou em meu cabelo e eu a peguei com as mãos, acho que elas já haviam
se acostumado com a nossa presença e viram que não éramos hostis.
Com
a borboleta ainda em minhas mãos me virei para Lex.
-
Está vendo isso?
-
A borboleta?
-
Não só ela... O comportamento dela. Confiança. Coragem. Estamos esse tempo todo
aqui e uma delas veio testar se éramos hostis ou não.
-
Acho que meu povo devia ser como elas.
Passei
a borboleta para a mão dele e ele logo a soltou e a deixou voar novamente.
Olhei
para ele sorrindo.
-
Como as pessoas não viram esse lugar? – Lex me perguntou.
-
Acho que ele não existia antes de vocês virem. Acho que essas borboletas não
existiam antes de vocês.
Ficamos
em silêncio por um tempo, vendo as borboletas começarem a pousar ao nosso
redor.
-
Na verdade, acho que a invasão não foi tão ruim... Só deviam ter poupado o medo
e o massacre que causaram.
-
Tem medo de mim Kat?
-
Eu tinha... Não tenho mais.
-
Sabe que somos perigosos não é?
-
Armas e guerreiros existem pra isso, e acho que sei lutar.
-
Você e Josh correm muito perigo andando por ai sem armas, podemos estar em
qualquer lugar. Podemos estar invisíveis...
-
Agora eu sei.
- Acho
que o arco e flecha deveriam andar com você por todo o lado, e acho que Josh
poderia tem uma arma também. Não gosto de ver vocês vulneráveis.
Lex
se preocupava, não só comigo como com Josh e isso estava colocando na minha
mente que ele era uma pessoa confiável.
Nos
levantamos e começamos a sair da caverna, passando pela galáxia de vagalumes
que tinham voltado a brilhar intensamente.
Quando
dei por mim já estava escurecendo e eu teria que deixar Lex no prédio e voltar
para o buraco.
A
caminhada para o prédio foi percorrida em silêncio, a única coisa que se ouvia
era o som dos nossos passos e das nossas respirações.
Finalmente
chegamos e o sol já não aparecia mais, o dia tinha ficado nublado e estava na
hora de ir pra casa.
-
Sabe, acho que vai ser difícil. – Lex falou, quebrando o silêncio.
-
Difícil? O que?
-
Conquistar sua confiança.
-
Acho que não... Você está me provando o contrário.
-
Sério mesmo?
-
É... Só que, se estiver mentindo, não deixe eu saber, ou então você será um
homem morto. – Falei, o que o fez rir.
-
Vou deixar o seu planeta com a tripulação, vou devolver a sua terra ao seu
povo, vou devolver sua liberdade.
Eu
sorri e dei um beijo em sua bochecha.
-
Boa noite Lex.
-
Boa noite Kat.
Ele
subiu o prédio e eu continuei meu caminho em direção ao buraco.
Eu
não podia acreditar, que depois de tantos anos odiando os superiores, querendo
explodir uma rebelião para que voltássemos a ser livres, eu iria acabar me
apaixonando por um deles.
E
o pior.
Era
um deles que me ajudaria a libertar o planeta.
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