Assim
que cheguei à entrada do buraco, tirei a capa e enrolei as roupas molhadas
nela.
Quando
entrei parecia que o buraco estava diferente, mas acho que era tudo porque eu
tinha acabado de viver um dos melhores dias da minha vida. No final, quem
estava diferente era eu.
As
pessoas faziam seus trabalhos, as crianças brincavam... Tudo normal.
Chegando
a casa, coloquei as roupas na máquina de lavar. Meu pai não estava e finalmente
achei uma coisa estranha. Já iam dar oito da noite e ele estava fora?
Tomei
um banho rápido e troquei as roupas e fui até o lado de fora procurar meu pai.
[...]
Eu
estava quase desistindo, mas faltava só um lugar a procurar. Eu e Josh
detestávamos aquele lugar com todas as forças, mas meu pai só podia estar lá. O
centro.
As
coisas eram muito mais movimentadas lá do que perto da entrada do buraco. As
pessoas vendiam mercadorias, andavam de um lado para o outro levando caixas,
encomendas. A única coisa boa do centro era o cheiro de comida que vinha de
alguns lugares.
E
era lá que ficavam os túneis de interligação, corredores imensos que ligavam um
buraco a outro e pelo que eu sabia, nunca ninguém tinha usado, nem para entrar
e nem para sair do buraco, todos preferiam ficar naquele lugar, menos eu e
Josh.
Comecei
a procurar meu pai nos pubs, onde ficavam alguns amigos dele; depois procurei
na praça e nada, eu não o achava em lugar nenhum.
Eu
não acreditava que ele tinha ido ao parlamento porque todos odiavam aquele
lugar há não ser as pessoas que trabalhavam lá, incluindo os pais de Josh.
Entrei mesmo assim, eu queria saber onde meu pai estava.
Chegando
perto da porta da sala de reuniões, ouvi a voz do meu pai vindo de dentro da
sala.
Fiquei
encostada na parede ouvindo o que eles falavam lá dentro.
-
O Conselho decidiu, sua filha não pode mais ficar entre nós.
-
Mas isso não é certo! Acredite que se não fosse por ela, todos aqui estariam
mortos de fome e os menos favorecidos não teriam o que comer.
-
Está duvidando da nossa organização social, senhor Aleck?
-
Não, senhor Ministro, mas acredito que somente com as plantações do subterrâneo
não conseguiríamos deixar essa organização estável. Muitos morreriam de fome,
se não já tem famílias inteiras passando fome.
Tudo
ficou em silêncio. Eu não estava respirando direito, eles iam me exilar? Eles
tinham noção de que eu saía do buraco, mas... E Josh? Os pais dele estavam
protegendo ele contra o Conselho? Eu não estava acreditando.
-
Sinto muito senhor Aleck, ela pode ser um risco para a população do
subterrâneo. Não sabemos se ela está fazendo contato com os superiores, não
sabemos nada que ela faz do lado de fora.
-
Posso garantir ao senhor que ela só trás alimento para os túneis.
-
Muito bem. – Ouvi a voz da mãe de Josh. – Acho que podemos dar uma segunda
chance a ela. Ela deverá arranjar um emprego em algum estabelecimento do
subterrâneo. Se não o fizer, vamos exilá-la e o senhor também.
Eu
não podia acreditar. Eles queriam me exilar. E o pior... Queriam exilar o meu
pai pelas coisas que eu estava fazendo.
Não
pude deixar que eles falassem aquilo e entrei na sala.
-
Não podem fazer isso!
-
Kat, o que está fazendo aqui?
-
Papai, eu não posso deixar que façam isso com você.
O
Conselho ficou de pé.
-
Não podem me obrigar a trabalhar! – Falei.
-
Então você será exilada.
-
Se eu for, a sua “organização social perfeita” será desestabilizada. A
população que mora mais longe do centro vai passar fome e vocês vão ter
problemas.
Eles
se entreolharam.
-
Então faça a prova da Colheita e passe.
-
Não farei isso.
-
E porque não?
- Não
saio só pra trazer comida pra vocês. Eu saio pra explorar! Sei de coisas que
nenhum de vocês sabem por que eu descobri sozinha. Na verdade... Não sozinha.
Com o Josh.
Todos
olharam para os pais de Josh. Não queria dizer o nome dele, mas se era pra ser assim,
todos deviam saber que eu não era a única.
-
Como é?
-
É isso mesmo. E se querem saber, tem moradores de outros buracos com a gente,
não somos só nós dois. Sendo que eles são mais livres. Quando querem, vão e
voltam dos buracos. Acho que eu e Josh somos adultos o suficiente para sabermos
defender o buraco de qualquer superior.
A
sala ficou em silêncio, e durou tanto tempo que eu peguei na mão de meu pai e
saí da sala, batendo as pesadas portas atrás de mim.
[...]
-
O que acha que fez.
-
Salvei nossa pele pai.
-
Olha, colocou em risco o pescoço de Josh também. Ele é seu amigo.
-
Os pais dele sempre souberam que ele sai, só que estavam escondendo isso de
todo mundo, isso não é certo.
Meu
pai me encarou sério. Eu sei que tocar no nome de Josh foi errado, mas era a
única maneira de fazer o Conselho se calar, afinal, era o filho de um dos
deles.
-
Acho que você devia parar de sair. – Meu pai falou, virando os olhos para o
chão.
Minha
respiração começou a falhar. Eu não podia ficar presa no buraco, agora tinha
Lex do lado de fora, eu tinha que sair.
-
Não posso ficar aqui. – Falei.
-
E tem um motivo concreto pra isso?
Fechei
os olhos e respirei fundo, eu não queria contar a ele, sobre Lex e o plano de salvar
o planeta.
- Na
verdade não... Mas eu e Josh ajudamos o subúrbio a sobreviver. Isso não é um
motivo concreto pra você?
Ele
sorriu e me beijou a testa.
-
Sabe... Você me lembra muito o seu pai.
Eu
sorri e meus olhos marejaram inconscientemente.
-
Pai... Posso te fazer uma pergunta?
-
Claro Kat.
- Você
conhece essa música?
Comecei
a cantar a música que meu pai de sangue cantava pra mim quando era menor, a
mesma música que cantei na caverna. Logo Aleck abriu um sorriso triste, o que
me deixou perceber que ele a conhecia.
-
Não tem como não conhecer... Ela se chama Castle
On A Cloud, do musical Os Miseráveis.
-
O que acontece com a menina que canta essa música?
-
Quer ouvir a história toda? Só não posso cantar pra você. – Ele falou, tinha um
sorriso nos lábios, mas ainda assim parecia triste.
Me
deitei no colo de meu pai e ele me contou.
O
nome da menina era Cosette. O que tinha acontecido a ela? Ela fora “adotada”
por um homem e no final, se casou com Marius, que era um verdadeiro príncipe.
Logo
depois, meu pai pediu que eu fosse dormir.
Sonhei
com um castelo nas nuvens, e a moça de branco da música, pela primeira vez
tinha o rosto da minha mãe.
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