Eu
queria um remédio pra culpa. Depois que entrei no Parlamento e expus Josh
daquele jeito sem lhe dar direito à defesa, eu passe a me sentir meio mal.
Acordei
às cinco da manhã, meu estômago revirava com a ideia de encontrar Josh.
Saí
de casa e o buraco ainda estava pouco movimentado graças ao horário.
Primeiro
fui à casa de Josh e olhei pela janela de seu quarto, não havia ninguém ali.
Então fui para a escotilha, mas também não tinha ninguém lá. Meu coração
apertou. Corri até o centro da cidade em direção ao Parlamento e lá estava ele,
sentado nas escadas.
-
O que você ta fazendo aqui? – Falei, tentando recuperar o fôlego.
-
Eles descobriram... – Ele falou, os olhos marejados.
-
O que?
-
Sobre nós. Sobre a escotilha. Vão fechar o buraco, ninguém entra ou sai mais
pela escotilha.
Eles
haviam ido longe demais, meus olhos ardiam de pura raiva.
Entrei
no Parlamento sem nem pedir licença e lá esta o Conselho. Todos pararam e
olharam pra mim.
-
Quem vocês pensam que são pra tirar o nosso direito de liberdade?!
-
Nos perdoe senhorita Katheryn, mas estamos zelando pelo bem estar da população
do subterrâneo.
-
Se fecharem a nossa única saída, os subúrbios vão morrer de fome, não entendem?
Pessoas como eu existem para ajudar o subúrbio, que é a parte da cidade a qual
vocês nem ligam!
Minha
última frase ecoou pelo salão, gerando certo poder sobre ela.
-
Não podemos permitir que saiam do subterrâneo, e sua ideia sobre não ajudarmos
o subúrbio é equivocada! – Falou o pai de Josh.
Soltei
uma risada nervosa e irônica.
-
Muito bem... Pergunte ao seu filho como está o subúrbio. Se bobear ninguém do
Conselho vai até lá desde as últimas eleições e isso foi a cinco anos!
Eu
já estava prevendo tudo. Uma carta ao meu pai, a humilhação pública, o
banimento, um pai enfrentando as consequências sozinho, enquanto eu vivia por
minha conta na superfície.
-
Querem saber... Podem me banir se quiserem, eu não ligo! Mas já me tiraram a
liberdade uma vez... E ninguém vai me tirar de novo!
Saí
do Parlamento pisando pesado e só então percebi que eu estava tremendo.
Passei
por Josh que estava parado ao final da escada a minha espera.
-
O que vai fazer? – Ele falou.
-
Talvez seja a última vez que consiga trazer comida pra esse lugar.
Entrei
em casa batendo a porta com força atrás de mim.
-
O que houve Kat? – Meu pai perguntou.
-
Talvez me expulsem do buraco hoje pai, vou trazer comida antes que fechem as
saídas.
Ele
me segurou pelos braços.
-
O que você fez?
-
Questionei minha “escravidão” nesse lugar. Sou uma garota livre pai... Esse
buraco não é pra mim.
Ele
fez uma cara de preocupação que dividiu meu coração em dois.
Segurei
as mãos dele com força e olhei bem em seus olhos.
-
Tem que me prometer, que não vai sair de jeito nenhum, que não vai me procurar
nem nada. – Falei.
-
Filha...
Era
a primeira vez que ele me chamava de filha, o que me fez vacilar um pouco.
-
Me prometa pai! – Falei, já com os olhos cheios de lágrimas e o choro batendo à
porta.
Ele
assentiu com a cabeça e nós nos abraçamos. Ficamos ali por alguns minutos que
pareceram horas, o que foi bom.
Ele
pegou minha capa que estava seca e amarrou ao meu pescoço.
-
Cuidado lá fora senhorita Katheryn. – Ele falou, um sorriso triste nos lábios.
-
Eu prometo que vou ter cuidado pai.
Saí
de casa e pude ouvir os soluços de meu pai ao lado de dentro.
Josh
ainda vinha andando atrás de mim, então ele segurou meu pulso com força.
-
Me solta Josh! – Falei olhando nos olhos dele.
-
Se você for banida, vou com você! Não vou suportar esse lugar sem você!
-
O quê?
Ele
não podia ter realmente dito aquilo, não do jeito que ele tinha dito, com
lágrimas nos olhos, respiração ofegante, isso não era amizade era uma... Coisa
mais forte.
Fiquei
parada sentindo a minha pulsação mais forte, aumentando à medida que ele
apertava meu pulso. Os olhos dele olhavam diretamente nos meus, o que fez
crescer um nó em meu estômago. Tirei meu pulso da mão dele aos poucos e
continuamos ali parados, olhando um para o outro.
Uma
pequena multidão do subúrbio havia se reunido ali, ou observava ao longe. O
pior é que todos eram rostos conhecidos pra mim.
Senti
minhas bochechas queimarem.
-
Eu... Eu não quero que seja banida, é muito perigoso...
-
Já estivesse lá fora sozinha antes, não tenho mais medo.
-
Por favor, Kat... Se eu souber que você está sozinha lá e que não vai voltar...
-
Mas... Não vou estar sozinha.
Ele
estreitou os olhos me estudando, não demorou muito até ele entender o que eu
tinha acabado de dizer e seu olhar perplexo sobre mim fez o chão aos meus pés
balançar um pouco.
-
Você não... Eu não acredito! – Ele pegou meu braço com força e me puxou pra
mais perto dele para não falar alto. – Você está apaixonada pelo Lex?
Eu
não sabia exatamente o que eu sentia por Lex, mas tudo indicava que sim. Era a
primeira vez que eu queria ser banida sem sentir medo de ficar na superfície.
Tudo isso porque tinha alguém me esperando do lado de fora.
Alguém
que se preocupava comigo.
Puxei
meu braço das mãos dele e me afastei.
-
Não seja ridículo, Josh. – Voltei a falar no tom de antes.
Não
podia deixar as pessoas desconfiarem que tinha alguém lá fora me esperando, a
primeira coisa que iam pensar é que era um superior. Até aí, correto, mas eles
iriam persegui-lo e matá-lo, então parte de mim morreria também.
-
Se não está... Não verá problema nisso.
Ele
me puxou pela cintura e, por mais que eu tentasse, Josh era forte demais e eu
não conseguia me soltar dele.
Ele
me beijou, um beijo bom e quente, mas não senti a mesma sensação do quase beijo
de Lex.
E
então eu tive certeza de que estava apaixonada por Lex.
Esperei
até Josh relaxar os músculos tensos para que eu conseguisse me soltar dele.
-
Porque fez isso?! – Falei, quase gritando.
-
Você não está apaixonada, então não tem problema, não é?
Coloquei
minhas mãos sobre seu peitoral e o empurrei.
-
Você... Nunca mais... Faça isso! – Falei e cuspi no chão.
Me
virei e fui em direção a escotilha, tendo consciência que Josh ainda vinha
atrás de mim. Quando chegamos à escotilha, respirei fundo.
-
Porque aquela ceninha toda? – Josh perguntou.
Minha
respiração era pesada demais, eu sentia meus ombros subindo e descendo.
-
Porque você fez aquilo? E todos os anos juntos, e todo o tempo que passamos do
lado de fora nos divertindo...? Era pra terminar nisso?
Ele
baixou os olhos para o chão, um pouco envergonhado.
-
Não acredito nisso Josh, por favor, não me diz que era exatamente por isso que
começou a falar comigo...
-
Eu te achava a garota mais linda desse buraco ta? Eu queria que fosse minha
namorada desde que te conheci quando tinha quinze anos e sabia que você queria
ir pra superfície, então te levei até lá. Acabou que você se mostrou mais
esperta e interessante do que eu achava que seria, e acabou virando uma amiga
perfeita. Mas ainda assim... Eu queria que fosse minha namorada.
Eu
o olhei, não podia acreditar que Josh estava fazendo aquilo. Ele acabara de
pisar em vários anos de amizade, estava deixando danos em várias partes de
memórias que tínhamos juntos.
-
Para... Por favor... – Falei.
-
Do que você está falando?
Baixei
a cabeça com os olhos fechados.
-
Você quer saber a verdade? Estou apaixonada por Lex, comecei a acreditar no
plano dele.
-
Vocês se... Beijaram? Rolou alguma coisa quando eu não estava com vocês ontem?
-
Não Josh! E mesmo se tivesse rolado, são minhas escolhas, ok?! Lex me fez
acreditar nele, me provou que tudo pode dar certo.
- Sabe
que se ajudá-lo e que se der certo, ele vai embora... Não sabe?
Tinha
pensado pela primeira vez nisso e senti meu coração vacilar um pouco.
-
Mesmo assim Josh... Você é o meu melhor amigo e eu estou apaixonada por Lex.
Não me faça sentir essa dor que eu estou sentindo agora... Por favor, Josh,
pelas memórias que nós temos.
O
silêncio era horrível, foi então que percebi que nós dois estávamos chorando, e
isso doeu mais do que eu imaginei.
Desviei
os olhos de Josh e abri a escotilha.
-
Tenho que ir... Antes que meu tempo pra voltar acabe.
Sai
e fechei a escotilha por fora. Pendurei minha aljava de flechas a tira colo e,
com meu arco na mão esquerda, fui em direção ao prédio. Tinha que avisar a Lex
que nosso plano tinha que entrar em prática o mais rápido possível.
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