sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Capítulo 12

Andei em silêncio absoluto até o prédio, pensei em minha discussão com Josh e no meu provável banimento.
Eu estava completamente perdida emocionalmente, eu queria só... Ficar sozinha.
Quando cheguei perto do prédio, pude ver a silhueta de Lex no terraço. Os cabelos cacheados voando com o vento.
Lex não devia estar me esperando, ainda estava muito cedo pra eu aparecer, então... O que ele estava fazendo.
Subi o prédio e lá estava ele.
- Tão cedo?
- Pois é. – Falei, ajeitando a alça da aljava, que começava a me enforcar.
Ele me olhou preocupado.
- Você está bem?
Eu comecei a chorar.
Não queria parecer fraca, mas era o meu estado no momento. Estava fraca, desmoronando, a minha vida mudou muito rápido em questão de dias, e eu ainda não estava acostumada.
Lex me abraçou e ficou passando a mão pelo meu cabelo, que ainda estava solto e não com a trança de sempre.
- Josh gosta muito de você Kat... Ele não fez isso pra te magoar, era só uma maneira de se aproximar.
- Mas porque ele esperou eu sentir isso por outra pessoa?
- Outra pessoa?
Eu me calei, não queria dizer a Lex o que eu sentia por ele. Ainda não.
- É... Eu não sinto nada pelo Josh... Mas ele é meu melhor amigo!
- Acho que você tem que esperar isso esfriar um pouco. Os dois estão nervosos com o seu provável banimento... Talvez precisem descansar a cabeça.
Assenti e ficou tudo em silêncio de novo.
Depois de alguns minutos, foi que percebi que Lex segurava a minha mão.
- Preciso levar comida para o meu pai... Eles vão fechar o buraco.
- Eu te ajudo como puder. – Ele falou, um pouco constrangido por não saber fazer nada.
Sorri e descemos o prédio.

[...]

As arapucas que tínhamos montado no dia anterior tinham pegado dois coelhos e alguns pássaros e achei que aquilo estava bom para levar ao meu pai. Com sorte duraria pelo menos um mês, afinal, era só o meu pai.
- Hei Kat... É boa no arco? – Lex perguntou, desafiador.
- Claro que sou... Modesta a parte.
- Quero ver.
- Ótimo... O que devo fazer?
Ele apontou para um árvore.
- O esquilo... Acho que dará mais alguns dias de comida para o seu pai não é?
Ele tinha razão.
Preparei a flecha e mirei o alvo. Ele não parava de se mexer, mas já havia caçado esquilos antes.
Sei que era errado matar aqueles bichinhos, mas era uma questão de sobrevivência.
Eu pedia desculpas sempre antes de soltar a flecha e atingir o alvo na cabeça. Morte rápida e sem dor. Quase nunca errei um tiro.
- Uau! – Lex aplaudiu e depois correu até o lugar onde estava o esquilo.
Ele trouxe o esquilo segurando pela flecha ainda presa no crânio do bicho.
- Você mirou aí de propósito?
- Eles não merecem sofrer... Tento poupar o sofrimento deles.
Coloquei o esquilo num saco de pano junto com os coelhos.
Isso era meio nojento, principalmente se você sempre comprou carnes em bandejas de isopor no supermercado, mas o mundo havia mudado e as carnes de supermercado haviam apodrecido à anos.
Lex se ofereceu para levar o saco enquanto eu levava os pássaros pelos pés.
Passamos mais algum tempo em silêncio andando em direção ao prédio.
- Olha, sobre o seu plano... Preciso que ele entre em ação o mais rápido possível.
- Tem uma coisa que não te contei.
Respirei fundo, eu estava preocupada com o que viria.
- Consertei a nave... Posso voltar e falar com meu pai hoje mesmo.
- Isso... Seria maravilhoso. – Falei, abrindo um sorriso.
Peguei o saco de pano e pendurei no ombro.
- Vai, eu vou para o buraco sozinha sem problemas. Quando mais rápido o plano funcionar, mais vantagem teremos.
- Acredita mesmo que possa dar certo?
Pensei um pouco.
Lex era um oficial que havia sofrido um acidente, o máximo que poderia acontecer era internarem Lex, alegando que havia batido a cabeça forte demais.
Tinha grandes chances de funcionar.
- Acredito.
Ele sorriu e não pude deixar de sorrir também.
- Confie em mim, vou voltar pra você.
Lex saiu correndo em direção ao campo de morangos, deixando o final da frase ecoando no vento.
Eu vou voltar pra você”, pareceu uma promessa forte demais pra mim. Não podíamos prometer nada um para o outro, éramos de mundos diferentes, éramos inimigos mortais, e estávamos prometendo voltar um para o outro.
Essa lógica não estava certa.
Corri na direção do buraco para dar tempo de entrar e entregar tudo ao meu pai antes que me detivessem.

[...]

Entrei em casa e coloquei tudo sobre a mesa da cozinha. A casa estava vazia e eu sabia onde meu pai estava.
Fui andando em direção ao centro, ainda meio suja da poeira do lado de fora e com a capa presa as costas, a aljava com as flechas estava pendurava a tira colo e meu arco estava em minhas mãos.
A praça estava cheia de gente, sim, a humilhação pública.
O tempo havia passado rápido demais e provavelmente Lex já estava conversando com o pai, pelo menos, eram as contas que eu tinha feito mentalmente. Pena que eu era ruim em matemática.
Meu pai fora colocado no centro da praça, ao lado de onde agora estava Lerangis, líder do Conselho, do Parlamento e do buraco.
- Atenção, habitantes do subterrâneo, esse homem, que muitos de vocês conhecem por vender medicamentos e alimento a vocês não passe de um traidor.
E era assim que os “políticos” do subterrâneo agiam... Colocavam toda a população contra quem eles achassem que estivesse errado.
- Todos os produtos dele vêm da superfície e sabemos que a superfície se tornou um lugar radioativo desde o massacre.
A multidão começou a fazer barulho. Todos estavam insatisfeitos. Deviam querer jogar pedras no meu pai, mas eu não iria permitir.
- Vocês acham que o banimento dele devia ser imediato?
A multidão gritava e eu não conseguia ouvir mais nada.
Meus olhos encontraram os do meu pai e ele conseguiu sorrir.
Abri caminho entre as pessoas e quando dei por mim estava para ao lado de Lerangis, apontando uma flecha para a sua cabeça. E como vocês sabem... Eu era boa nisso.
- Pare com isso Lerangis, sabe que está mentindo. – Falei.
A multidão havia se calado, todos estavam tensos. A vida de um subterrâneo estava em minhas mãos.
- Como ousa voltar?
- Já disse o que tinha que dizer? Agora é a minha vez de falar com eles. – Falei.
Baixei a flecha, deixei a aljava de lado e me dirigi para as pessoas que estavam olhando para nós.
- População do subterrâneo. É verdade que vocês conhecem o senhor Aleck por vender alimentos e medicamentos. É verdade também que é proibido sair dos túneis. Mas já pararam pra pensar que sem os medicamentos e os alimentos da superfície vocês estariam mortos?
Meus olhos correram rápidos pela multidão, procurando por Josh, mas não consegui achá-lo. Talvez ele nem estivesse ali.
- Se a superfície é tão radioativa assim, porque eu ainda estou viva se vou lá desde os meus quinze anos? – Falei, me dirigindo a Lerangis.
Parte da população começava a falar, gerando um burburinho incessante.
- Mas lá é perigoso demais. – Lerangis falou. – Você devia estar morta. Devíamos matar você agora.
- Está certo que a superfície é perigosa. Está certo que lá tem animais que podem matar e claro, os temidos superiores.
Assim que terminei a frase, todos se calaram.
- Em todos esses anos, nunca vi um superior na superfície, isso até uma nave cair. Assim que a nave caiu, corri para um esconderijo e não me acharam. Não representaram ameaça alguma.
Os olhos pulavam de mim para Lerangis como se assistissem uma partida de ping-pong.
- Se representassem uma ameaça tão grande assim, teriam me seguido e destruído os túneis, mas eles não fizeram isso. E sabem por quê? Porque somos fracos demais. Oprimidos. Sem liberdade nenhuma. Me considero com sorte por ter passado dias do lado de fora aprendendo coisas que vocês não saberão, há não ser que saiam.
Senti uma pontada nas costas e logo depois a ardência de um corte.
Vi meu pai gritar com o homem que havia acabado de me dar uma chicotada nas costas.
- Retire o que disse. – Lerangis falou.
- Palavras não vão me ameaçar senhor. – Falei, conseguindo formar um sorriso nos lábios.
As chicotadas vieram cortantes, meu pai gritava enquanto dois homens os seguravam pelos braços.
Lerangis esperava que eu fosse gritar, mas a cada chicotada eu absorvia a dor e fechava os olhos, sem fazer nenhum barulho.
Quando as chicotadas finalmente pararam, eu já estava no chão. Sentia gosto de sangue e senti que tinha cortes na bochecha e na testa. Meu corpo estava tremendo e então comecei a sentir a dor em certos pontos: costas, pernas, braços e rosto.
Meu cabelo caía sobre meus olhos, mas ainda assim podia ver o pavor no rosto das pessoas que faziam um silêncio mortal.
- Isso é o que acontece com quem quebra as leis do subterrâneo. Alguém mais se arrisca a desafiar as leis?
Não sei o que aconteceu no momento seguinte. Ouvi o barulho de uma arma de plasma e logo o corpo de Lerangis caiu ao meu lado.
O silêncio continuou, estavam todos perplexos demais.
Dei uma olhada no tiro. No meio da testa.

E eu tinha certeza de quem havia atirado... Josh.

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