terça-feira, 8 de outubro de 2013

Capítulo 29

*POV Lex*

Eu tinha feito de propósito, dei a ela o código da sala do meu pai, e eu sabia que ele estaria lá.
Ele trocava o olhar entre mim e Kat e parou os olhos sobre nossas mãos, que estavam grudadas.
- Ora, ora, se não é a traidora e o bastardo... Sabe, acho que formam um belo casal. Afinal, os dois se merecem.
Senti a pulsação de Kat aumentar em seu pulso, ela estava com medo.
Ela me olhou, os olhos verdes cobertos de pavor.
Ela conseguia disfarçar a respiração, mas não conseguia esconder o medo de mim, eu podia vê-lo. Se eu podia vê-lo, meu pai já teria visto muito antes.
- Não fale assim dela. – Falei.
- E quem é você pra me dizer o que fazer? Um garoto? Que traiu sua espécie por causa de uma moradora de um buraco de minhoca imundo.
- Não fale assim do único lugar que nos sobrou. – Kat gritou.
Conhecia essa mudança rápida de humor que Kat tinha... Há um segundo, ela estava com medo. Agora, era capaz de matar Alarik se quisesse.
Ela soltou minha mão e começou a andar na direção de Alarik, apontando o dedo para ele.
- Você não pode nos humilhar mais do que já fez. Fez com que vivêssemos escondidos em buracos, se não fossem por vocês, estaríamos vivendo normalmente.
- E você ainda estaria junto de seus pais.
Kat parou. Sua respiração vacilou e ela se curvou um pouco para frente.
A puxei para trás e a abracei.
- Como ele pode? Como ele pode saber?
- Seu amigo... Ou devemos chamá-lo de pai? A mente dele é muito boa de invadir. – Alarik falou, lançando um sorriso em direção a Kat, que o olhava fixamente.
- O que fez com ele? O que fez com meu pai? – Kat gritou.
Ela começou a se debater em meus braços.
- Não faça isso, vai piorar as coisas! – Falei em seu ouvido.
Ela parou. A respiração era ofegante e seus olhos estavam cheios de lágrimas.
- Não fiz nada... Procedimento padrão. Seu querido namorado fazia isso frequentemente com líderes de outras espécies, ele era realmente importante.
Kat se soltou dos meus braços e me encarou.
- Isso é verdade?
Baixei os olhos.
- Diga a ela Lex, diga a ela que você é um mentiroso, conte o que você fez.
Eu podia ver sua caixa torácica subindo e descendo numa velocidade impressionante.
- Lex... Você...
- Sim Kat, eu menti pra você.
Eu não queria contar a ela... Não queria contar a ela que eu havia matado grandes líderes de espécies invadidas.
A única diferença era que todas essas espécies tinham poderes, e podiam lutar com a nossa e, com sorte, saírem ganhando, mas os humanos...? Poder de fogo não podia nos derrotar. Força? Éramos dez vezes mais forte que o homem mais forte em todo o planeta. Ainda tínhamos poderes mentais e teletransporte.
Eles foram massacrados covardemente.
- Eu não... Como pôde mentir pra mim? – Kat falou. Tinham lágrimas rolando o seu rosto.
- Ele não é o único... Aleck contou a você como seus pais morreram?
Kat o olhou.
“Não acredite nele!” eu queria dizer, mas ele não estava mentindo, então permaneci com a cabeça abaixada.
- Ele não os viu morrer. – Kat falou, de uma maneira inocente.
Pude jurar que a sala tremeu com a risada de Alarik.
- Você é boa demais Kat... Boa e inocente demais. Todos mentiram pra você. Nunca te contaram toda a verdade.
Eu podia sentir o choro de Kat, podia sentir sua raiva, seu medo, sua mágoa, sua tristeza.
- Aleck viu seus pais morrerem, Aleck sabia quando Josh disse que estava apaixonado por você. Josh se fez de seu melhor amigo, mas ele queria algo a mais. Lex mentiu pra você desde o início. O que quer mais.
Kat limpou os olhos na manga da camisa.
- Então isso significa que está mentindo pra mim. – Ela falou.
- Ah querida, quem me dera... Mas não é assim que as coisas funcionam. Minha espécie é proibida de mentir dentro da base. Lex nunca admitiria que mentiu pra você.
Ela me olhou, e quando fez isso, me lançou um olhar, não de raiva, mas de solidariedade, o que me deixou bem surpreso.
- Se não é mentira, eu quero saber de tudo.
- Não Kat. – Eu falei.
- Deixe a menina saber, Lex... Ela não está se mostrando medrosa e fraca como você.
- Disse que não podia mentir, mas quer matá-la com memórias de um adulto! – Falei.
Alarik veio andando até mim.
O tapa que deu em meu rosto doeu mais que qualquer coisa que já tiveram me atingido.
- Não tem mais o direito de falar aqui Lex. Você não passa de um traidor, que vai ser julgado com pena de morte quando tudo acabar.
Eu sentia meu rosto formigando. Não tive coragem de olhar para Kat.
- Então querida, onde paramos...?
- Eu quero a verdade.
Aquela não era a voz dela.
Ela falava tão suavemente, que chegava a dar enjoo. Por mais que Kat estivesse calma, ela nunca falava daquele jeito.
Me virei e vi que seus olhos estavam pálidos.
- Kat, Kat acorde! Ele vai matar você.
Ela piscou, mas o poder de hipnose de Alarik era forte demais.
Tomei toda a coragem que pude e corri em direção ao corpo ereto de Alarik, derrubando-o.
Ele caiu perto da janela.
Por pouco, peguei o corpo de Kat, que caiu fraco em meu colo.
- Perdeu o juízo, rapaz? – Ele falou, se levantando e vindo em minha direção.
- Vamos Kat, acorde. – Eu falava, enquanto dava batidinhas em seu rosto.
Os olhos dela estavam semicerrados. As íris verdes haviam ido embora, dando espaço a pupilas pretas completamente dilatadas.
Eu não queria usar o último recurso, mas ela não estava acordando.
Enchi meu pulso de energia, e coloquei a mão sobre seu peito.
O choque foi grande demais, e fiquei com medo de que pudesse tê-la matado, mas suas pupilas diminuíram numa velocidade absurda e ela levantou respirando rápido.
- Lex...
Ela olhou para trás. Alarik estava em pé atrás de mim, com o punho cerrado acima da minha cabeça.
Rolei com Kat para o lado.
- Tente levantar, corra para o hangar 5 e entre na nave. Se eu não voltar em três minutos, detone os dispositivos.
- Não vou embora sem você!
Eu a beijei. O beijo mais intenso de toda a minha vida.
- Você precisa. Vou segurá-lo o quando der.
- Lex...
- Cala a boca e vai! – Gritei.
Ela deve ter se sentido ofendida, mas correu assim mesmo.
- Que nobre cavalheiro, pelo menos isso puxou o pai.
- Não sou seu filho.
Direcionei toda a força do meu corpo para meus braços e o empurrei no peito. Ele caiu no chão.
- Está aprendendo táticas de luta com humanos? Que desperdício... Realmente, não é meu filho.
Ele pulou e se levantou.
Alarik visava meu pulso, eu conhecia esse golpe, ele me ensinara, e eu o havia aplicado em Josh.
Meu objetivo era atingir seu pé, se ele caísse, eu poderia ganhá-lo.
Investi em uma rasteira e ela funcionou.
Virei o de costas e puxei seu braço para trás. Ele gritou de dor, ouvi seus ossos estalarem, mas não quebrarem. Eu precisaria de muito mais força para isso.
- Eu não acredito no que está fazendo a troco de nada. – Alarik gritou.
- Do que está falando?
- Está lutando com seu próprio pai, depois de todos esses anos juntos, lutando lado a lado, eu te ensinando tudo que eu sabia. Está fazendo isso por uma garota? E pior... Por uma garota inimiga e fraca?
- Pare de falar dela! Ela não é fraca, ninguém a conhece! – Gritei.
- E nem você garoto! – Seu grito soou mais alto que o meu. – Passou alguns dias com ela na Terra e acha que já a conhece?
- Você não viu o que ela fez? O que ela fez para salvar um homem que a criou e nem pai dela era. Ela defendeu Josh, ela me defendeu do melhor amigo dela. – Falei. – Ela é a pessoa mais corajosa que já vi na vida.
Isso o atingiu em cheio. Eu sabia a fraqueza dele.
Quando eu tinha 10 anos, eles contaram na escola como a Terra havia sido dominada.
Foi uma história bonita. Aumentando meu pai, que foi líder da invasão, em nível de herói planetário.
Todos queriam ser eu na escola, todos queriam ser filho do comandante Alarik.
Quando cheguei a casa, na mesma tarde, pedi para que ele me contasse o que havia acontecido e ele só me fez ficar ainda mais orgulhoso.
Ele disse que os humanos foram o povo mais difícil de conquistar, que eles tiveram que usar todas as forças para tirá-los de lá.
Realmente, eles usaram todas as forças, mas eles mataram metade da população mundial, e isso significava um número enorme.
Há noite, eu contara a história para minha mãe, que o olhava decepcionada, mas eu não entendia o por quê.
Eu fiquei triste ao ver que meu pai tinha ficado mal com o olhar duro de minha mãe.
Pai, não fique assim... Ela não entende.” Eu falava, mas a verdade era que EU não entendia.
Tudo bem, filho... Sei que ela não entende.
Você é a pessoa mais corajosa que já vi na vida!
Isso inflou o ego do meu pai. Um ano depois, ele se divorciou de minha mãe e me levou embora junto. Eu nunca mais vi minha mãe depois disso.
Ele começou a me treinar em combate corpo a corpo e quando fiz 13, ganhei minha primeira nave e aprendi a pilotar.
Quando completei 17, já estava na aeronáutica como cadete e quase subindo minha patente. Então meu pai me mandou para missões. Eu servia como um detector de mentiras e lia mentes de governantes de planetas, líderes natos, que podiam mentir para qualquer um. Esse foi meu último teste para que eu fosse encaminhado para a Emperor.
Certo dia, um pouco antes do acidente da nave que me fez conhecer Kat, fiquei incomodado com o fato de nunca mais ter visto minha mãe e pedi permissão a ele para poder vê-la.
Esqueça-a.” Ele disse.
Por quê?”
“Tem coisas que devemos esquecer na vida rapaz. Você já é um homem, tem que se portar como tal.”
“Primeiro de tudo, não é uma coisa que eu possa esquecer, é a minha mãe! Segundo, me portar como homem não é esquecer quem me gerou e cuidou de mim.”
“Eu cuidei de você!”
“Só depois que se separou dela... Se não cuidasse de mim, eu estaria sozinho no mundo.”
“Você não vai ver ninguém!”
“Porque não permite que eu a veja? Só vou abraçá-la, sabe como eu sinto saudades.”
“Você não pode vê-la!” Ele gritou.
E porque não?!” Gritei de volta.
Ele olhou para o chão, não era permitido mentir dentro da Emperor.
Ela está morta... Morreu assim que saímos, pelas mãos da tropa.”
Eu queria chorar, era como se tivesse me dado uma martelada no coração e ele doía.
Passei a vida sobre a mentira de que ela não podia nos ver, ou que ela não queria nos ver.
“E eles estavam sob ordem de quem?”
Ele não respondeu.
Alarik havia mandado matarem minha mãe.
A última coisa que disse a ele antes de fugir foi “Tenho nojo de ser seu filho.”.
Cuspi no chão, com raiva e saí. Peguei as chaves da minha nave e fui até a oficina, onde a mesma estava passando por reparos.
Mesmo sabendo que ela não estava em condições, voei assim mesmo e acabei caindo no lado.
A última imagem que lembrava antes de desmaiar completamente foi o rosto de uma garota no vidro da nave, tentando quebrá-la.
Kat.
- Eu sei que tem nojo de mim, Lex... Sei o que eu te fiz, mas você está cometendo um erro muito grande...
- E qual seria o erro hein? Hein? – Gritei. - Ajudar uma espécie sem poderes a sobreviver? Devíamos ter feito isso antes ao invés de destruí-los. Devolver a liberdade que foi tirada de uma espécie? Bem, primeiro que nem deveríamos ter tirado. Tentar devolver o conforto de pessoas que perderam famílias pra minha própria espécie? Se você desse mais valor a o que um dia fora sua família você entenderia... Mas você cresceu sob a asa de alguém que não foi sua família, não é? Uma alienígena, forçada a ser sua criada... Era uma escrava, mas te amava. Mas você cresceu e não deu valor a ela não foi?
- Lex... – Ele falou, havia dor em sua voz.
- NÃO FOI?! – Eu gritei, o choro estava quase pulando da minha garganta. – Seus pais não te amavam como deviam! Você se sentia sozinho! Queria pessoas que te amassem perto de você! Seus pais eram da frota, então logo te recrutaram! Sua carência por amor se transformou em ódio e você preferiu o medo à admiração. Não poupou nem o próprio pai, lutou com ele até que ele não aguentasse mais, pois estava velho e você queria o posto que ele ocupava.
Eu ouvia Alarik soluçar, baixo, mas era um soluço, só que eu não podia sentir pena.
Só então descobri que eu lera toda a mente do meu pai e estava usando suas memórias contra ele.
Apertei seu braço em um ângulo errado, e senti que o osso havia deslocado.
Cheguei bem próximo ao seu ouvido.
- Estamos na Emperor... Você não disse uma palavra porque é verdade... Você só não quer admitir que matou seu pai e que sua mãe morreu de desgosto depois.
- E vai preferir matar sua espécie por causa de uma mais fraca?
- Antes uma mais fraca, que uma cruel.
- Eles são cruéis Lex... Não entende? Antes de virmos eles destruíam o próprio planeta, filhos matavam pais, irmão matava irmão.
- E eles aprenderam com o erro deles! Moram em buracos, passam fome, estão sem ver vários parentes ou porque moram em outros buracos ou porque estão mortos. Eles sabem o que perderam... Eles realmente perderam tudo o que tinham.
Eu me levantei e me apoiei na porta.
- Não saia dessa base... Eu vou saber se você sair. Estou disposto a morrer detendo você a te ver livre formando um exército novo.
Fui cambaleando pelo corredor até ver um sinal de emergência.
Apertei o botão e um alarme começou a soar. As luzes oscilavam entre branco e vermelho, as pessoas começaram a correr para as naves injetoras.
Fui andando devagar de volta para a sala do meu pai e fiquei sentado à porta, olhando para o corpo de Alarik caído no chão, aos prantos.
Eu nunca tinha torturado alguém, e a sensação era a pior possível. Eu me sentia fraco, impotente, eu acabara de fazer uma das piores coisas do mundo.
Eu não desejava ser torturado, e não desejava isso para ninguém, nem mesmo para meu pai. Mas ele merecera.
Fiquei ali sentado. Eu sabia que não poderia sair dali, ou ele iria fugir.
- Me perdoe Kat.
Fiz o pensamento viajar até o hangar 5, que estava abaixo de mim. Senti que ela havia recebido meu pensamento.
Eu sabia que ela tinha recebido com sucesso por que a senti chorar, e senti o choro dela em mim.

Não poderia sair da base... Ela estava nas mãos de Josh.

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