*POV Lex*
Eu tinha feito de
propósito, dei a ela o código da sala do meu pai, e eu sabia que ele estaria
lá.
Ele trocava o olhar entre
mim e Kat e parou os olhos sobre nossas mãos, que estavam grudadas.
- Ora, ora, se não é a
traidora e o bastardo... Sabe, acho que formam um belo casal. Afinal, os dois
se merecem.
Senti a pulsação de Kat
aumentar em seu pulso, ela estava com medo.
Ela me olhou, os olhos
verdes cobertos de pavor.
Ela conseguia disfarçar a
respiração, mas não conseguia esconder o medo de mim, eu podia vê-lo. Se eu
podia vê-lo, meu pai já teria visto muito antes.
- Não fale assim dela. –
Falei.
- E quem é você pra me
dizer o que fazer? Um garoto? Que traiu sua espécie por causa de uma moradora
de um buraco de minhoca imundo.
- Não fale assim do único
lugar que nos sobrou. – Kat gritou.
Conhecia essa mudança
rápida de humor que Kat tinha... Há um segundo, ela estava com medo. Agora, era
capaz de matar Alarik se quisesse.
Ela soltou minha mão e
começou a andar na direção de Alarik, apontando o dedo para ele.
- Você não pode nos
humilhar mais do que já fez. Fez com que vivêssemos escondidos em buracos, se
não fossem por vocês, estaríamos vivendo normalmente.
- E você ainda estaria
junto de seus pais.
Kat parou. Sua respiração
vacilou e ela se curvou um pouco para frente.
A puxei para trás e a
abracei.
- Como ele pode? Como ele
pode saber?
- Seu amigo... Ou devemos
chamá-lo de pai? A mente dele é muito boa de invadir. – Alarik falou, lançando
um sorriso em direção a Kat, que o olhava fixamente.
- O que fez com ele? O que
fez com meu pai? – Kat gritou.
Ela começou a se debater
em meus braços.
- Não faça isso, vai
piorar as coisas! – Falei em seu ouvido.
Ela parou. A respiração
era ofegante e seus olhos estavam cheios de lágrimas.
- Não fiz nada...
Procedimento padrão. Seu querido namorado fazia isso frequentemente com líderes
de outras espécies, ele era realmente importante.
Kat se soltou dos meus
braços e me encarou.
- Isso é verdade?
Baixei os olhos.
- Diga a ela Lex, diga a
ela que você é um mentiroso, conte o que você fez.
Eu podia ver sua caixa
torácica subindo e descendo numa velocidade impressionante.
- Lex... Você...
- Sim Kat, eu menti pra
você.
Eu não queria contar a
ela... Não queria contar a ela que eu havia matado grandes líderes de espécies
invadidas.
A única diferença era que
todas essas espécies tinham poderes, e podiam lutar com a nossa e, com sorte,
saírem ganhando, mas os humanos...? Poder de fogo não podia nos derrotar.
Força? Éramos dez vezes mais forte que o homem mais forte em todo o planeta.
Ainda tínhamos poderes mentais e teletransporte.
Eles foram massacrados
covardemente.
- Eu não... Como pôde
mentir pra mim? – Kat falou. Tinham lágrimas rolando o seu rosto.
- Ele não é o único...
Aleck contou a você como seus pais morreram?
Kat o olhou.
“Não acredite nele!” eu
queria dizer, mas ele não estava mentindo, então permaneci com a cabeça
abaixada.
- Ele não os viu morrer. –
Kat falou, de uma maneira inocente.
Pude jurar que a sala
tremeu com a risada de Alarik.
- Você é boa demais Kat...
Boa e inocente demais. Todos mentiram pra você. Nunca te contaram toda a
verdade.
Eu podia sentir o choro de
Kat, podia sentir sua raiva, seu medo, sua mágoa, sua tristeza.
- Aleck viu seus pais
morrerem, Aleck sabia quando Josh disse que estava apaixonado por você. Josh se
fez de seu melhor amigo, mas ele queria algo a mais. Lex mentiu pra você desde
o início. O que quer mais.
Kat limpou os olhos na
manga da camisa.
- Então isso significa que
está mentindo pra mim. – Ela falou.
- Ah querida, quem me
dera... Mas não é assim que as coisas funcionam. Minha espécie é proibida de
mentir dentro da base. Lex nunca admitiria que mentiu pra você.
Ela me olhou, e quando fez
isso, me lançou um olhar, não de raiva, mas de solidariedade, o que me deixou
bem surpreso.
- Se não é mentira, eu
quero saber de tudo.
- Não Kat. – Eu falei.
- Deixe a menina saber,
Lex... Ela não está se mostrando medrosa e fraca como você.
- Disse que não podia
mentir, mas quer matá-la com memórias de um adulto! – Falei.
Alarik veio andando até
mim.
O tapa que deu em meu
rosto doeu mais que qualquer coisa que já tiveram me atingido.
- Não tem mais o direito
de falar aqui Lex. Você não passa de um traidor, que vai ser julgado com pena
de morte quando tudo acabar.
Eu sentia meu rosto
formigando. Não tive coragem de olhar para Kat.
- Então querida, onde
paramos...?
- Eu quero a verdade.
Aquela não era a voz dela.
Ela falava tão suavemente,
que chegava a dar enjoo. Por mais que Kat estivesse calma, ela nunca falava
daquele jeito.
Me virei e vi que seus
olhos estavam pálidos.
- Kat, Kat acorde! Ele vai
matar você.
Ela piscou, mas o poder de
hipnose de Alarik era forte demais.
Tomei toda a coragem que
pude e corri em direção ao corpo ereto de Alarik, derrubando-o.
Ele caiu perto da janela.
Por pouco, peguei o corpo
de Kat, que caiu fraco em meu colo.
- Perdeu o juízo, rapaz? –
Ele falou, se levantando e vindo em minha direção.
- Vamos Kat, acorde. – Eu
falava, enquanto dava batidinhas em seu rosto.
Os olhos dela estavam
semicerrados. As íris verdes haviam ido embora, dando espaço a pupilas pretas
completamente dilatadas.
Eu não queria usar o
último recurso, mas ela não estava acordando.
Enchi meu pulso de
energia, e coloquei a mão sobre seu peito.
O choque foi grande
demais, e fiquei com medo de que pudesse tê-la matado, mas suas pupilas
diminuíram numa velocidade absurda e ela levantou respirando rápido.
- Lex...
Ela olhou para trás.
Alarik estava em pé atrás de mim, com o punho cerrado acima da minha cabeça.
Rolei com Kat para o lado.
- Tente levantar, corra
para o hangar 5 e entre na nave. Se eu não voltar em três minutos, detone os
dispositivos.
- Não vou embora sem você!
Eu a beijei. O beijo mais
intenso de toda a minha vida.
- Você precisa. Vou
segurá-lo o quando der.
- Lex...
- Cala a boca e vai! –
Gritei.
Ela deve ter se sentido
ofendida, mas correu assim mesmo.
- Que nobre cavalheiro,
pelo menos isso puxou o pai.
- Não sou seu filho.
Direcionei toda a força do
meu corpo para meus braços e o empurrei no peito. Ele caiu no chão.
- Está aprendendo táticas
de luta com humanos? Que desperdício... Realmente, não é meu filho.
Ele pulou e se levantou.
Alarik visava meu pulso,
eu conhecia esse golpe, ele me ensinara, e eu o havia aplicado em Josh.
Meu objetivo era atingir
seu pé, se ele caísse, eu poderia ganhá-lo.
Investi em uma rasteira e
ela funcionou.
Virei o de costas e puxei
seu braço para trás. Ele gritou de dor, ouvi seus ossos estalarem, mas não
quebrarem. Eu precisaria de muito mais força para isso.
- Eu não acredito no que
está fazendo a troco de nada. – Alarik gritou.
- Do que está falando?
- Está lutando com seu
próprio pai, depois de todos esses anos juntos, lutando lado a lado, eu te
ensinando tudo que eu sabia. Está fazendo isso por uma garota? E pior... Por
uma garota inimiga e fraca?
- Pare de falar dela! Ela
não é fraca, ninguém a conhece! – Gritei.
- E nem você garoto! – Seu
grito soou mais alto que o meu. – Passou alguns dias com ela na Terra e acha
que já a conhece?
- Você não viu o que ela
fez? O que ela fez para salvar um homem que a criou e nem pai dela era. Ela
defendeu Josh, ela me defendeu do melhor amigo dela. – Falei. – Ela é a pessoa
mais corajosa que já vi na vida.
Isso o atingiu em cheio.
Eu sabia a fraqueza dele.
Quando eu tinha 10 anos,
eles contaram na escola como a Terra havia sido dominada.
Foi uma história bonita.
Aumentando meu pai, que foi líder da invasão, em nível de herói planetário.
Todos queriam ser eu na
escola, todos queriam ser filho do comandante Alarik.
Quando cheguei a casa, na
mesma tarde, pedi para que ele me contasse o que havia acontecido e ele só me
fez ficar ainda mais orgulhoso.
Ele disse que os humanos
foram o povo mais difícil de conquistar, que eles tiveram que usar todas as
forças para tirá-los de lá.
Realmente, eles usaram
todas as forças, mas eles mataram metade da população mundial, e isso
significava um número enorme.
Há noite, eu contara a
história para minha mãe, que o olhava decepcionada, mas eu não entendia o por quê.
Eu fiquei triste ao ver
que meu pai tinha ficado mal com o olhar duro de minha mãe.
“Pai, não fique assim... Ela não entende.” Eu falava, mas a verdade
era que EU não entendia.
“Tudo bem, filho... Sei que ela não entende.”
“Você é a pessoa mais corajosa que já vi na vida!”
Isso inflou o ego do meu
pai. Um ano depois, ele se divorciou de minha mãe e me levou embora junto. Eu
nunca mais vi minha mãe depois disso.
Ele começou a me treinar
em combate corpo a corpo e quando fiz 13, ganhei minha primeira nave e aprendi
a pilotar.
Quando completei 17, já
estava na aeronáutica como cadete e quase subindo minha patente. Então meu pai
me mandou para missões. Eu servia como um detector de mentiras e lia mentes de
governantes de planetas, líderes natos, que podiam mentir para qualquer um.
Esse foi meu último teste para que eu fosse encaminhado para a Emperor.
Certo dia, um pouco antes
do acidente da nave que me fez conhecer Kat, fiquei incomodado com o fato de
nunca mais ter visto minha mãe e pedi permissão a ele para poder vê-la.
“Esqueça-a.” Ele disse.
“Por quê?”
“Tem coisas que devemos esquecer na vida rapaz. Você já é um
homem, tem que se portar como tal.”
“Primeiro de tudo, não é uma coisa que eu possa esquecer, é a
minha mãe! Segundo, me portar como homem não é esquecer quem me gerou e cuidou
de mim.”
“Eu cuidei de você!”
“Só depois que se separou dela... Se não cuidasse de mim, eu
estaria sozinho no mundo.”
“Você não vai ver ninguém!”
“Porque não permite que eu a veja? Só vou abraçá-la, sabe
como eu sinto saudades.”
“Você não pode vê-la!” Ele gritou.
“E porque não?!” Gritei de volta.
Ele olhou para o chão, não
era permitido mentir dentro da Emperor.
“Ela está morta... Morreu assim que saímos, pelas mãos da tropa.”
Eu queria chorar, era como
se tivesse me dado uma martelada no coração e ele doía.
Passei a vida sobre a
mentira de que ela não podia nos ver, ou que ela não queria nos ver.
“E eles estavam sob ordem de quem?”
Ele não respondeu.
Alarik havia mandado
matarem minha mãe.
A última coisa que disse a
ele antes de fugir foi “Tenho nojo de ser
seu filho.”.
Cuspi no chão, com raiva e
saí. Peguei as chaves da minha nave e fui até a oficina, onde a mesma estava
passando por reparos.
Mesmo sabendo que ela não
estava em condições, voei assim mesmo e acabei caindo no lado.
A última imagem que
lembrava antes de desmaiar completamente foi o rosto de uma garota no vidro da
nave, tentando quebrá-la.
Kat.
- Eu sei que tem nojo de
mim, Lex... Sei o que eu te fiz, mas você está cometendo um erro muito
grande...
- E qual seria o erro hein?
Hein? – Gritei. - Ajudar uma espécie sem poderes a sobreviver? Devíamos ter
feito isso antes ao invés de destruí-los. Devolver a liberdade que foi tirada
de uma espécie? Bem, primeiro que nem deveríamos ter tirado. Tentar devolver o
conforto de pessoas que perderam famílias pra minha própria espécie? Se você
desse mais valor a o que um dia fora sua família você entenderia... Mas você
cresceu sob a asa de alguém que não foi sua família, não é? Uma alienígena,
forçada a ser sua criada... Era uma escrava, mas te amava. Mas você cresceu e
não deu valor a ela não foi?
- Lex... – Ele falou,
havia dor em sua voz.
- NÃO FOI?! – Eu gritei, o
choro estava quase pulando da minha garganta. – Seus pais não te amavam como
deviam! Você se sentia sozinho! Queria pessoas que te amassem perto de você!
Seus pais eram da frota, então logo te recrutaram! Sua carência por amor se
transformou em ódio e você preferiu o medo à admiração. Não poupou nem o
próprio pai, lutou com ele até que ele não aguentasse mais, pois estava velho e
você queria o posto que ele ocupava.
Eu ouvia Alarik soluçar,
baixo, mas era um soluço, só que eu não podia sentir pena.
Só então descobri que eu
lera toda a mente do meu pai e estava usando suas memórias contra ele.
Apertei seu braço em um
ângulo errado, e senti que o osso havia deslocado.
Cheguei bem próximo ao seu
ouvido.
- Estamos na Emperor...
Você não disse uma palavra porque é verdade... Você só não quer admitir que
matou seu pai e que sua mãe morreu de desgosto depois.
- E vai preferir matar sua
espécie por causa de uma mais fraca?
- Antes uma mais fraca,
que uma cruel.
- Eles são cruéis Lex...
Não entende? Antes de virmos eles destruíam o próprio planeta, filhos matavam
pais, irmão matava irmão.
- E eles aprenderam com o
erro deles! Moram em buracos, passam fome, estão sem ver vários parentes ou
porque moram em outros buracos ou porque estão mortos. Eles sabem o que
perderam... Eles realmente perderam tudo o que tinham.
Eu me levantei e me apoiei
na porta.
- Não saia dessa base...
Eu vou saber se você sair. Estou disposto a morrer detendo você a te ver livre
formando um exército novo.
Fui cambaleando pelo
corredor até ver um sinal de emergência.
Apertei o botão e um
alarme começou a soar. As luzes oscilavam entre branco e vermelho, as pessoas
começaram a correr para as naves injetoras.
Fui andando devagar de
volta para a sala do meu pai e fiquei sentado à porta, olhando para o corpo de
Alarik caído no chão, aos prantos.
Eu nunca tinha torturado
alguém, e a sensação era a pior possível. Eu me sentia fraco, impotente, eu
acabara de fazer uma das piores coisas do mundo.
Eu não desejava ser
torturado, e não desejava isso para ninguém, nem mesmo para meu pai. Mas ele
merecera.
Fiquei ali sentado. Eu
sabia que não poderia sair dali, ou ele iria fugir.
- Me perdoe Kat.
Fiz o pensamento viajar
até o hangar 5, que estava abaixo de mim. Senti que ela havia recebido meu
pensamento.
Eu sabia que ela tinha
recebido com sucesso por que a senti chorar, e senti o choro dela em mim.
Não poderia sair da
base... Ela estava nas mãos de Josh.
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