*POV Kat*
Assim que saí da sala,
virei no primeiro corredor que apareceu.
Me encostei na parede e
fui escorregando até sentar no chão.
Eu não queria deixá-lo lá,
eu não queria me separar de Lex. Ele estava lá, lutando com o próprio pai para
me defender... Para defender uma espécie que não era a dele.
As pessoas passavam por
mim, mas eu era invisível, não estava usando o poder da pulseira, mas era como
se ninguém me visse ali.
Eu me senti fraca. Eu não
conseguia levantar, apenas chorar.
Levantei a cabeça, que
antes estava apoiada nos joelhos. Eu soluçava.
Limpei as lágrimas nas
mangas da camisa, eu queria gritar, mas isso chamaria a atenção e uma coisa
ruim poderia acontecer.
Tentei controlar a minha
respiração.
Aleck havia mentido para
mim. Josh havia mentido para mim. Os oficiais do buraco haviam mentido para
todos. Lex havia mentido também. Eu estava cercada por mentirosos.
Mas era uma filosofia
contraditória. Eles mentiam, e tudo era para a proteção de outra pessoa.
Seja o que for que Aleck
vira naquele dia, eu era muito pequena para saber, e talvez ele mesmo estivesse
se protegendo das próprias memórias. Josh não queria estragar nossa amizade,
por isso não falou nada. Os oficiais tinham medo do lado de fora, por isso queriam
proteger toda a população que ainda restava. Lex... Lex me amava, e por isso
não quis me contar toda a verdade.
Mas eu estava cansada de
mentirem para me protegerem, mesmo que doesse, eu queria a verdade.
Prometi a mim mesma que,
se tudo acabasse bem e eu saísse de lá viva, queria saber toda a verdade sobre
a morte dos meus pais.
Quando finalmente consegui
controlar a minha respiração e parar de tremer, um alarme começou a tocar.
As luzes piscavam entre um
branco ofuscante e um vermelho que irritava a visão. Eles deviam ser imunes a
isso, porque eu já estava ficando tonta.
Me apoiei na parede e
tentei me levantar. Olhei para o chão para não me irritar tanto com a luz.
Fui em direção à escadaria
que levava ao andar de baixo, onde ficavam os hangares.
A luz era mais fraca, só
tinha uma luz vermelha piscando de dez em dez segundos, sim, eu estava
desesperada e contei os segundos.
Falando de segundos... Eu
não sabia quanto tempo estava longe de Lex.
Afastei essa ideia da
cabeça e comecei a procurar o número cinco na porta.
Eu ouvia pessoas correndo
no andar de cima, pessoas correndo no corredor dos hangares para as saídas de
cápsulas de emergência. O plano estava dando certo.
De repente, um pensamento
muito forte me atingiu, me fazendo vacilar.
“Me perdoe, Kat.” A voz de Lex, e eu sabia que não era um
pensamentos meu... Ele tinha falado isso no andar de cima.
Meu peito se encheu com um
sentimento não conhecido ainda por mim, insegurança.
Eu não sabia mais o que
fazer. Ou eu voltava e salvava Lex, ou eu salvava Josh e meu pai.
Decidi continuar com o
plano e me dirigi, ainda chorando, para o hangar 5.
[...]
Era o hangar mais
movimentado, pois era maior e tinha mais cápsulas de emergência.
Comecei a correr em
direção à nave de Lex.
Josh me viu e logo acionou
os propulsores.
Aumentei meu caminhar para
uma corrida, quando alguém ficou em meu caminho.
- Hei, você humana.
Dois homens vieram um de
cada lado e me seguraram.
- Me soltem! – Falei.
- Não espera... Eu só
queria pedir um favor.
Eu via pavor nos olhos do
homem que havia pedido para eu parar.
- Minha esposa acaba de
dar a luz. Não temos como mandar a criança para o nosso planeta.
O que eu podia fazer? O
que meus pais fariam? Eles ouviriam o que ele tinha a dizer, nem que precisassem
morrer.
Olhei para Josh e acenei
com a cabeça. Ele assentiu com a cabeça.
- Onde ela está? –
Perguntei.
Corri atrás dele em
direção à esposa.
Lá estava ela, com um bebê
no colo.
- Amor, ela tem uma nave,
ela vai voltar para o planeta dela.
- Onde é o planeta dela?
- Ela é humana.
A mulher me olhou, os
olhos arregalados.
- Você confiou nela?
- Sim... Li sua mente, o
plano de nos tirar daqui vivos foi dela, a base vai explodir.
- Não vamos sair daqui,
Keaton, as cápsulas foram todas ocupadas.
Keaton olhou para a esposa.
- Zoe... Ela pode salvar
nossa filha.
Eu estava segurando o
soluço que estava prestes a pular do meu peito. Não podia deixar de pensar em
meus pais.
- Zoe, meu nome é Kat.
Pode confiar sua filha a mim. – Eu fiz uma pausa, ela ainda não confiava em
mim. – Quando atacaram meu planeta, meus pais me entregaram a um homem, o nome
dele é Aleck, ele cuida de mim até hoje, e está aqui, me ajudando. Sei como é
viver sem os pais depois que o seu mundo desmorona... Pode confiar em mim.
Os olhos de Zoe se
inundaram de lágrimas. Ela olhou uma última vez para a menina e a entregou a
mim.
- Ela ainda não tem
nome... Dê o que achar melhor.
Peguei a menina nos braços
e recebi um abraço de Zoe.
- Boa sorte Kat.
Assenti com a cabeça.
Olhei para Keaton.
- Muito obrigado. – Ele
falou.
Eu assenti mais uma vez,
então virei as costas e corri em direção a nave.
A menina em meu colo
começou a chorar.
- Hei, calma garotinha...
Estamos quase lá. – Falei.
Pressionei sua cabecinha
em meu peito e tampei o outro ouvido dela com a minha mão, para abafar os sons
de choros e do alarme.
Josh desceu a rampa da
nave e eu entrei.
Só não desabei assim que
cheguei à sala de controle porque estava com uma criança nos braços.
- Kat... O que...? – Josh
se cortou.
Eu não conseguia parar de
chorar.
Ele veio até mim e pegou a
menina no colo. Foi ai que caí no chão e fiquei ali, encolhida e chorando.
- Onde está o Lex?
- Ele vai ficar. Disse que
se não chegasse em três minutos que eu podia explodir tudo. Ele não vai
conseguir sair.
Lex olhou para meu pai,
que baixou a cabeça.
- Vamos esperar todas as
cápsulas saírem tudo bem? Depois você pode explodir tudo.
Fiz que sim com a cabeça.
E me sentei no chão.
Josh se sentou a minha
frente com a menina no colo.
Olhei para ele e sorri.
- Qual o nome dela? – Ele
perguntou.
- A mãe disse para eu dar
o nome a ela, mas confio-a mais a você do que a mim.
Josh levantou os olhos a
mim e encontrou meu sorriso.
- Está... Me dando ela?
- É... Eu não seria capaz
de cuidar de alguém.
Senti as tatuagens se
mexerem e eu sabia que estava fazendo a coisa certa, elas não estavam prontas
para receber ninguém.
Josh olhou novamente para
ela.
- Victoria é um nome muito
clichê não é?
- Sim. – Falei, soltando
uma risada.
Ele pensou mais um pouco.
Josh era uma enciclopédia de nomes ele, com certeza, ia achar um perfeito.
- Que tal... Nik? Não um
apelido, um nome mesmo.
- Porque esse nome? – Eu
sorri.
Ele corou.
- Bem, Victoria é um nome
muito comum, só peguei a pronúncia do nome da deusa em grego.
Eu sorri.
- Nik é lindo.
Ele me olhou e sorriu.
Me levantei e fui até meu
pai, que estava com o braço enrolado ao corpo.
- Você está bem?
- Estou melhor agora,
sabendo que você está aqui.
Eu sorri.
- Me desculpe Kat,
desculpe por ter mentido sobre seus pais...
- Depois você me conta o
que realmente aconteceu. Não estou chateada com você. Isso pode esperar.
Ele me lançou um sorriso.
Olhei para o hangar, as
cápsulas já estavam, em sua maioria, voando para a direção contrária a da
Terra. Eles estavam voltando pra casa.
Fechei os olhos,
agradecendo mentalmente e pude sentir um sorriso se formando em meus lábios.
“Vão embora agora! Não posso segurar Alarik por muito tempo!” ouvi a
voz de Lex em minha mente.
- Josh, vamos decolar. –
Falei.
Peguei Nik em meu colo e
me sentei em uma das poltronas brancas que tinha na sala.
Ela tinha os olhos azuis
fluorescentes com pontos verdes, agora eles estavam bem abertos e olhando para
mim.
- Hei Nik. – Falei.
Passei meu dedo sobre o
rosto dela e ela o pegou com as mãozinhas. Ela o segurou forte, pelo menos com
a maior força que um bebê pode segurar seu dedo.
- Bem vinda à família Nik.
Ela fez um barulhinho e
sorriu. Eu não sabia que recém-nascidos podiam sorrir tão definidamente.
- Kat, já pode explodir.
Tirei meu dedo da mão de
Nik, com medo de que ela chorasse e apertei o botão do detonador em meu pulso.
Eu agradeci por estarmos
no vácuo, pois assim não pude escutar nenhum som, nenhuma explosão.
Senti uma oscilação, que
levou a nave um pouco pra frente, e mais nada.
Lex se fora, e eu tinha
consciência disso.
[...]
Eu estava deitada em uma
cama com Nik, que dormia.
Estava acariciando seus
cabelos ralinhos quando minhas costas começaram a formigar.
No começo era só uma
coceira fraca, mas depois virou uma dormência, logo ela começou a queimar.
Me levantei em silêncio,
para não acordar Nik, e corri até a sala de controle.
- Me ajuda Josh, me ajuda.
- O que houve? – Ele ligou
o piloto automático.
- As minhas costas estão
queimando.
Ele levantou minha camisa
e senti que prendeu a respiração.
- Suas tatuagens tinham...
Folhas?
Folhas?
- Não. – Falei.
- O que significa?
Se as tatuagens não
sumiram, significa que o poder de Lex ainda existia, e isso significava que ele
ainda estava vivo.
Abracei Josh. Ele me
abraçou de volta sem entender.
- O que foi?
- Lex ainda está vivo...
Ele só está me informando isso.
Josh sorriu. Acho que ele
não estava mais apaixonado por mim, o que era bom.
- Espero que ele não
demore muito a voltar... Você não está em condições de ficar sozinha.
- Mas e você?
- O mundo vai ser
repovoado Kat... Eu vou conhecer pessoas novas, por mais que seja seu melhor
amigo, não vou estar o tempo todo com você.
Eu sorri. Foi uma maneira
sensível de falar que ele ia procurar uma namorada.
E que essa namorada
aceitasse Nik, ou então ela seria a pessoa errada.
Voltei para o quarto onde
Nik estava dormindo e encostei na porta, olhando para ela dormindo.
Fiquei pensando se Lex
demoraria muito a voltar.
Porque eu precisava dele.
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