sábado, 12 de outubro de 2013

Capítulo 30

*POV Kat*

Assim que saí da sala, virei no primeiro corredor que apareceu.
Me encostei na parede e fui escorregando até sentar no chão.
Eu não queria deixá-lo lá, eu não queria me separar de Lex. Ele estava lá, lutando com o próprio pai para me defender... Para defender uma espécie que não era a dele.
As pessoas passavam por mim, mas eu era invisível, não estava usando o poder da pulseira, mas era como se ninguém me visse ali.
Eu me senti fraca. Eu não conseguia levantar, apenas chorar.
Levantei a cabeça, que antes estava apoiada nos joelhos. Eu soluçava.
Limpei as lágrimas nas mangas da camisa, eu queria gritar, mas isso chamaria a atenção e uma coisa ruim poderia acontecer.
Tentei controlar a minha respiração.
Aleck havia mentido para mim. Josh havia mentido para mim. Os oficiais do buraco haviam mentido para todos. Lex havia mentido também. Eu estava cercada por mentirosos.
Mas era uma filosofia contraditória. Eles mentiam, e tudo era para a proteção de outra pessoa.
Seja o que for que Aleck vira naquele dia, eu era muito pequena para saber, e talvez ele mesmo estivesse se protegendo das próprias memórias. Josh não queria estragar nossa amizade, por isso não falou nada. Os oficiais tinham medo do lado de fora, por isso queriam proteger toda a população que ainda restava. Lex... Lex me amava, e por isso não quis me contar toda a verdade.
Mas eu estava cansada de mentirem para me protegerem, mesmo que doesse, eu queria a verdade.
Prometi a mim mesma que, se tudo acabasse bem e eu saísse de lá viva, queria saber toda a verdade sobre a morte dos meus pais.
Quando finalmente consegui controlar a minha respiração e parar de tremer, um alarme começou a tocar.
As luzes piscavam entre um branco ofuscante e um vermelho que irritava a visão. Eles deviam ser imunes a isso, porque eu já estava ficando tonta.
Me apoiei na parede e tentei me levantar. Olhei para o chão para não me irritar tanto com a luz.
Fui em direção à escadaria que levava ao andar de baixo, onde ficavam os hangares.
A luz era mais fraca, só tinha uma luz vermelha piscando de dez em dez segundos, sim, eu estava desesperada e contei os segundos.
Falando de segundos... Eu não sabia quanto tempo estava longe de Lex.
Afastei essa ideia da cabeça e comecei a procurar o número cinco na porta.
Eu ouvia pessoas correndo no andar de cima, pessoas correndo no corredor dos hangares para as saídas de cápsulas de emergência. O plano estava dando certo.
De repente, um pensamento muito forte me atingiu, me fazendo vacilar.
Me perdoe, Kat.” A voz de Lex, e eu sabia que não era um pensamentos meu... Ele tinha falado isso no andar de cima.
Meu peito se encheu com um sentimento não conhecido ainda por mim, insegurança.
Eu não sabia mais o que fazer. Ou eu voltava e salvava Lex, ou eu salvava Josh e meu pai.
Decidi continuar com o plano e me dirigi, ainda chorando, para o hangar 5.

[...]

Era o hangar mais movimentado, pois era maior e tinha mais cápsulas de emergência.
Comecei a correr em direção à nave de Lex.
Josh me viu e logo acionou os propulsores.
Aumentei meu caminhar para uma corrida, quando alguém ficou em meu caminho.
- Hei, você humana.
Dois homens vieram um de cada lado e me seguraram.
- Me soltem! – Falei.
- Não espera... Eu só queria pedir um favor.
Eu via pavor nos olhos do homem que havia pedido para eu parar.
- Minha esposa acaba de dar a luz. Não temos como mandar a criança para o nosso planeta.
O que eu podia fazer? O que meus pais fariam? Eles ouviriam o que ele tinha a dizer, nem que precisassem morrer.
Olhei para Josh e acenei com a cabeça. Ele assentiu com a cabeça.
- Onde ela está? – Perguntei.
Corri atrás dele em direção à esposa.
Lá estava ela, com um bebê no colo.
- Amor, ela tem uma nave, ela vai voltar para o planeta dela.
- Onde é o planeta dela?
- Ela é humana.
A mulher me olhou, os olhos arregalados.
- Você confiou nela?
- Sim... Li sua mente, o plano de nos tirar daqui vivos foi dela, a base vai explodir.
- Não vamos sair daqui, Keaton, as cápsulas foram todas ocupadas.
Keaton olhou para a esposa.
- Zoe... Ela pode salvar nossa filha.
Eu estava segurando o soluço que estava prestes a pular do meu peito. Não podia deixar de pensar em meus pais.
- Zoe, meu nome é Kat. Pode confiar sua filha a mim. – Eu fiz uma pausa, ela ainda não confiava em mim. – Quando atacaram meu planeta, meus pais me entregaram a um homem, o nome dele é Aleck, ele cuida de mim até hoje, e está aqui, me ajudando. Sei como é viver sem os pais depois que o seu mundo desmorona... Pode confiar em mim.
Os olhos de Zoe se inundaram de lágrimas. Ela olhou uma última vez para a menina e a entregou a mim.
- Ela ainda não tem nome... Dê o que achar melhor.
Peguei a menina nos braços e recebi um abraço de Zoe.
- Boa sorte Kat.
Assenti com a cabeça. Olhei para Keaton.
- Muito obrigado. – Ele falou.
Eu assenti mais uma vez, então virei as costas e corri em direção a nave.
A menina em meu colo começou a chorar.
- Hei, calma garotinha... Estamos quase lá. – Falei.
Pressionei sua cabecinha em meu peito e tampei o outro ouvido dela com a minha mão, para abafar os sons de choros e do alarme.
Josh desceu a rampa da nave e eu entrei.
Só não desabei assim que cheguei à sala de controle porque estava com uma criança nos braços.
- Kat... O que...? – Josh se cortou.
Eu não conseguia parar de chorar.
Ele veio até mim e pegou a menina no colo. Foi ai que caí no chão e fiquei ali, encolhida e chorando.
- Onde está o Lex?
- Ele vai ficar. Disse que se não chegasse em três minutos que eu podia explodir tudo. Ele não vai conseguir sair.
Lex olhou para meu pai, que baixou a cabeça.
- Vamos esperar todas as cápsulas saírem tudo bem? Depois você pode explodir tudo.
Fiz que sim com a cabeça. E me sentei no chão.
Josh se sentou a minha frente com a menina no colo.
Olhei para ele e sorri.
- Qual o nome dela? – Ele perguntou.
- A mãe disse para eu dar o nome a ela, mas confio-a mais a você do que a mim.
Josh levantou os olhos a mim e encontrou meu sorriso.
- Está... Me dando ela?
- É... Eu não seria capaz de cuidar de alguém.
Senti as tatuagens se mexerem e eu sabia que estava fazendo a coisa certa, elas não estavam prontas para receber ninguém.
Josh olhou novamente para ela.
- Victoria é um nome muito clichê não é?
- Sim. – Falei, soltando uma risada.
Ele pensou mais um pouco. Josh era uma enciclopédia de nomes ele, com certeza, ia achar um perfeito.
- Que tal... Nik? Não um apelido, um nome mesmo.
- Porque esse nome? – Eu sorri.
Ele corou.
- Bem, Victoria é um nome muito comum, só peguei a pronúncia do nome da deusa em grego.
Eu sorri.
- Nik é lindo.
Ele me olhou e sorriu.
Me levantei e fui até meu pai, que estava com o braço enrolado ao corpo.
- Você está bem?
- Estou melhor agora, sabendo que você está aqui.
Eu sorri.
- Me desculpe Kat, desculpe por ter mentido sobre seus pais...
- Depois você me conta o que realmente aconteceu. Não estou chateada com você. Isso pode esperar.
Ele me lançou um sorriso.
Olhei para o hangar, as cápsulas já estavam, em sua maioria, voando para a direção contrária a da Terra. Eles estavam voltando pra casa.
Fechei os olhos, agradecendo mentalmente e pude sentir um sorriso se formando em meus lábios.
Vão embora agora! Não posso segurar Alarik por muito tempo!” ouvi a voz de Lex em minha mente.
- Josh, vamos decolar. – Falei.
Peguei Nik em meu colo e me sentei em uma das poltronas brancas que tinha na sala.
Ela tinha os olhos azuis fluorescentes com pontos verdes, agora eles estavam bem abertos e olhando para mim.
- Hei Nik. – Falei.
Passei meu dedo sobre o rosto dela e ela o pegou com as mãozinhas. Ela o segurou forte, pelo menos com a maior força que um bebê pode segurar seu dedo.
- Bem vinda à família Nik.
Ela fez um barulhinho e sorriu. Eu não sabia que recém-nascidos podiam sorrir tão definidamente.
- Kat, já pode explodir.
Tirei meu dedo da mão de Nik, com medo de que ela chorasse e apertei o botão do detonador em meu pulso.
Eu agradeci por estarmos no vácuo, pois assim não pude escutar nenhum som, nenhuma explosão.
Senti uma oscilação, que levou a nave um pouco pra frente, e mais nada.
Lex se fora, e eu tinha consciência disso.

[...]

Eu estava deitada em uma cama com Nik, que dormia.
Estava acariciando seus cabelos ralinhos quando minhas costas começaram a formigar.
No começo era só uma coceira fraca, mas depois virou uma dormência, logo ela começou a queimar.
Me levantei em silêncio, para não acordar Nik, e corri até a sala de controle.
- Me ajuda Josh, me ajuda.
- O que houve? – Ele ligou o piloto automático.
- As minhas costas estão queimando.
Ele levantou minha camisa e senti que prendeu a respiração.
- Suas tatuagens tinham... Folhas?
Folhas?
- Não. – Falei.
- O que significa?
Se as tatuagens não sumiram, significa que o poder de Lex ainda existia, e isso significava que ele ainda estava vivo.
Abracei Josh. Ele me abraçou de volta sem entender.
- O que foi?
- Lex ainda está vivo... Ele só está me informando isso.
Josh sorriu. Acho que ele não estava mais apaixonado por mim, o que era bom.
- Espero que ele não demore muito a voltar... Você não está em condições de ficar sozinha.
- Mas e você?
- O mundo vai ser repovoado Kat... Eu vou conhecer pessoas novas, por mais que seja seu melhor amigo, não vou estar o tempo todo com você.
Eu sorri. Foi uma maneira sensível de falar que ele ia procurar uma namorada.
E que essa namorada aceitasse Nik, ou então ela seria a pessoa errada.
Voltei para o quarto onde Nik estava dormindo e encostei na porta, olhando para ela dormindo.
Fiquei pensando se Lex demoraria muito a voltar.

Porque eu precisava dele.

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