Assim que chegamos,
tomamos a decisão de ir falar com os buracos do norte, que eram bem mais
liberais que o nosso buraco no sul.
- Sabia que eles têm um
ponto de pouso pra naves? – Josh falou.
Olhei pelo vidro da
frente. Um ponto de pouso.
Buracos? Não havia nenhum,
as cidades eram pequenas, mas ainda assim eram cidades.
- Estamos mesmo nos
Estados Unidos?
- Acredite se quiser Kat.
– Aleck falou, sorrindo.
Peguei Nik e preparei para
a aterrissagem.
Uma multidão já havia se
formado um pouco longe do ponto de pouso para observar. Um homem e uma mulher
com idade o suficiente para serem meus pais, pararam mais à frente.
Josh baixou a rampa e nós
saímos.
Senti a respiração
aliviada deles ao ver que eram humanos.
Aleck estava com o braço
machucado demais e logo o levaram para o médico, junto com Nik, que precisava
de cuidados médicos.
- Vocês são humanos ou
mestiços? – A mulher perguntou.
- Humanos, moramos nos
subterrâneos do sul. – Falei.
- Eles ainda não saíram de
lá? – O homem falou.
- Eles disseram que haviam
saído. – A mulher retrucou. – Quantos anos vocês têm?
- Eu tenho vinte e um e
ele tem vinte e três. – Falei.
- E quando o massacre
aconteceu?
- Eu tinha oito e ele dez.
Alguns meses depois do massacre fomos morar no buraco.
A mulher e o homem se
entreolharam.
- Nos perdoe, meu nome é
Abigaill e esse é Benjamin. Somos líderes das províncias do Norte.
- São... Presidentes? –
Josh falou.
- Mais ou menos isso. –
Benjamin falou.
- Vamos conversar em um
local mais reservado. – Abigail falou, nos dirigindo para um edifício cinza e
dois andares.
[...]
O lugar era enorme.
O teto era decorado com
pinturas que eu já tinha visto nos prédios de Washington quando era pequena.
- Todos são recriações...
Afinal, perdemos a Casa Branca e a maioria dos prédios históricos de
Washington, de bancos a museus. – Abigail falou quando percebeu que eu olhava
fixamente para o teto.
- O que foi uma pena e uma
grande perda. – Benjamin falou. – Pelo menos todos os arquivos conseguiram ser
salvos, logo que descobrimos sobre a ameaça do ataque.
Então eles sabiam que
teria um ataque, porque não avisaram.
- O nome dos cientistas
que enviaram a mensagem decodificada era Connie e Matthew Thompson.
Parei de andar por um
momento.
- Eram meus pais. – Falei.
Os dois olharam pra mim.
- Você é a Esperança? –
Benjamin falou.
- Não, meu nome é
Katheryn.
- Sim, mas na mensagem,
eles disseram algo sobre, o sul ainda ter uma esperança... Uma menina, que não
teria medo do que acontecesse. Você é a Esperança.
Olhei para as mãos, ainda
sem poder entender. Olhei para Josh, mas ele levantou os ombros, dizendo que
não sabia.
- Eles fizeram isso de
propósito?
- Não, eles não sabiam que
iam morrer, mas disseram que morrer seria possível. – Benjamin falou.
- Porque você tem uma
nave? De onde estão vindo? – Abigail perguntou.
Contei toda a história,
sobre sairmos do buraco, sobre a fome, sobre o acidente de Lex, sobre o plano,
o exílio, o sequestro de Aleck e a invasão à Emperor.
Abigail e Benjamin
trocaram um olhar e se voltaram para mim, com sorrisos nos rostos.
- Você é a Esperança, Kat.
Salvou o planeta.
- Na verdade, não sabemos,
não temos como saber se vão nos invadir de novo. – Josh falou o que já passava
em minha cabeça.
- Eu só preciso que Lex
volte. Só ele pode me dizer o que aconteceu com a base.
- Ele estava dentro dela
quando explodiu? – Benjamin perguntou.
- Sim. – Falei.
- E como conseguiu
escapar? – Ele continuou.
- Os superiores têm
poderes, às vezes nem eles mesmos sabem até onde o poder pode chegar. Lex podia
se teletransportar e acho que foi assim que fugiu. – Falei.
Abigail tinha a feição
pensativa.
Os olhos cinza estavam
fixos no chão, o cabelo loiro, quase branco era cortado reto e estava
impecável, sem nenhum fio fora do lugar.
- Vocês devem estar
cansados. Podem comer, logo vamos arranjar um lugar para vocês dormirem. –
Abigail finalmente falou.
- Eu gostaria de ver Aleck
e Nik, se fosse possível. – Falei.
- Venha, vou levá-los à
ala hospitalar.
Seguimos Abigail por
dentro do edifício e ela nos mostrou onde ficava o hospital.
Aleck estava sentando em
uma maca, enquanto Nik terminava de ser vacinada.
- E ai pai? – Falei.
- Como eu imaginava.
- O que?
- Vão precisar amputar,
ele foi esmigalhado e não tem mais como concertá-lo.
Olhei com dor para o braço
de meu pai.
- Se Lex estivesse aqui...
- Ele morreria tentando
consertar meu braço, Kat... Lex é poderoso, mas tem limites.
Assenti com a cabeça.
- Eles me darão uma
prótese nova. Sabia que a tecnologia deles vem do planeta dos superiores?
- Como é?
- Sim. Eles me contaram
toda a história.
Há dez anos, três depois do massacre, os moradores do Norte
decidiram sair dos subterrâneos para ver se os superiores haviam partido. E
sim, eles haviam deixado o planeta. Ele era um tipo de colônia, mas estava
“livre” de ataques.
Abigail tinha 23 anos na época e Benjamin 26, eram irmãos e
estavam cansados de morar em um subterrâneo escuro.
Ela resolveu fazer um acordo de paz com os superiores,
dizendo que eles podiam comercializar produtos entre si. Os superiores
aceitaram logo de cara e a população do Norte estava livre, podiam voltar a
viver normalmente, como vivam antes.
Os irmãos foram enviados até as províncias do Sul, onde eles
ainda viviam em subterrâneos onde cada subterrâneo tinha um líder.
Os irmãos convocaram uma reunião do lado de fora, onde os
líderes saíram mortos de medo.
- Não há mais necessidades de viver em províncias. – Benjamin
falou.
Ele contou sobre o acordo que haviam feito com os superiores,
mas nenhum dos líderes do Sul apoiou. Alguns diziam que eles estavam bem, que
as pessoas passavam o dia do lado de fora do buraco e só voltavam para dormir,
o que Abigail e Benjamin aceitaram.
Mas outros líderes foram radicais. Isabel Campbell dizia que
os superiores só estavam enganando a população e que um dia eles voltariam com
todas as forças para matar todos outra vez.
- Com que finalidade nos matariam, Isabel? – Abigail falou.
- Eu não sei... Não sabemos nem de onde eles vêm e vocês
fizeram um acordo comercial com eles. Os moradores da minha província serão
proibidos de sair, não importa com qual circunstância. Ninguém entra ou sai da
minha província.
- Isabel... Já se passaram três anos...
- Não importa Abigail... Você ainda é muito nova para
entender que eles podem ser uma ameaça.
- Eles não são uma ameaça Isabel, não mais.
- Não venha com essa conversa de integrante da ONU... Sabe
muito bem o que aconteceu com sua tia Connie e com seu tio Matthew. Eles não
estariam orgulhosos de você agora.
Abigail se calou e se virou. Os três anos não foram o
suficiente para que ela esquecesse que os tios tinham morrido de uma maneira
brutal.
Abigail se virou para Isabel.
- Eles estariam orgulhosos sim... Se estivessem aqui,
ajudariam a libertar o Sul e não fariam o que você está fazendo. Bem... Se está
se recusando a fazer o pacto de paz, acho que devemos dividir o país.
Então os Estados Unidos foi dividido. A parte livre
continuava com o mesmo nome, mas a que recusou o acordo foi chamado de
Províncias do Sul.
Abigail e Benjamin eram
meus primos. Por isso que eles mandaram a mensagem para Abigail... Ela
trabalhava para a ONU e saberia o que fazer com a informação.
- Quer dizer que somos de
outro país? – Falei.
- É... Isabel estragou o
que poderia ser um mundo muito melhor. – Aleck falou.
- Nem pense em contar isso
para Josh, é provável que ele odeie a mãe mais ainda. – Falei.
Aleck assentiu com a
cabeça.
- Kat... Está na hora de
saber o que houve com seus pais.
Me sentei ao seu lado na
maca e ele começou a me contar.
Como todo o massacre
aconteceu.
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